Li e recomendo: As Firmes Resoluções de Jonathan Edwards.

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Comecei o ano com leitura desse livro: “As Firmes Resoluções de Jonathan Edwards”, de Steven Lawson (Ed. Fiel). O livro faz uma análise da vida de Jonathan Edwards por meio das 70 resoluções que ele fez e seguiu ao longo de sua vida. Não se trata de um livro de leitura rápida, embora seja bem pequeno, este é um daqueles livros meditativos, pois em cada capítulo o autor apresenta um desafio a ser aplicado em nossa vida cristã. Isso torna a leitura bem reflexiva. Olhar a vida de Edwards gera um incômodo; ele foi um homem cuja busca pela glória de Deus, por meio de uma vida de santidade, se destacou. O questionamento que me acompanhou ao longo dessa leitura foi: quão empenhada e comprometida com minha santificação eu tenho vivido? Sim, é o Espírito quem opera em nós a santificação, mas há também o imperativo: “sede santos”. Essas duas verdades andam juntas e não se anulam. A santificação não é um processo estático, o apóstolo Paulo se refere a ela de modo bem ativo: como uma corrida, como um atleta em exercício; ele também usa termos pesados como esmurrar o seu próprio corpo. O processo é ativo e não inerte.

Edwards vivia uma vida de constante avaliação, por isso formulou suas resoluções como um meio de avaliar-se. Elas também foram formuladas à medida que ele descobria em si áreas que precisava mudar. Cada resolução era um lembrete diário. Ele as relia semanalmente.
Como um atleta disciplinado e focado em sua missão, Edwards se dedicou em preparar-se para encontrar o Senhor. Não porque achasse que a salvação dependia de suas obras, mas como noiva que não poupa caprichos ao se adornar para o noivo, Edwards se empenhou em cultivar uma vida de piedade para se apresentar diante do Grande Noivo. Seu compromisso com a glória de Deus era tamanho que envolvia não somente o aspecto espiritual, mas todas as esferas de sua vida.

Um dos trechos que mais me marcou fala sobre a preocupação de Edwards com sua alimentação; visto que notava que determinados alimentos após serem consumidos o deixavam mais preguiçoso e indisposto a se dedicar aos estudos e à leitura da Palavra, ele buscava uma alimentação que lhe propiciasse mais disposição física e mental. Será que quando como estou consciente de que esse ou aquele alimento trará mais ou menos benefício para o meu corpo redundando em glória a Deus? Estou ciente dos malefícios que alguns alimentos podem me trazer limitando minha disposição em servir ao Senhor? Trata-se de uma reflexão necessária.

Edwards também tinha um forte senso da importância do tempo, tudo poderia ser recuperado, menos o tempo. Uma vez que prestaremos contas a Deus do uso que fizemos do tempo; Edwards buscava ser zeloso no uso do seu tempo. Isso era algo muito importante para ele. Mesmo falhando em diversos momentos, ele manteve esse foco ao longo de sua vida.

Isso me fez refletir sobre a administração que tenho feito do meu tempo: o tempo gasto no celular, a procrastinação, a negligência, a falta de pontualidade nos compromissos. É algo sério, mas, por vezes, ignorado. Ao fim da vida o que muitas pessoas gostariam é de ter tido mais tempo, mas elas não calculam isso enquanto o tem de sobra. Por isso, precisamos ser mordomos do tempo, assim como das demais coisas que o Senhor nos concede. O exemplo de Edwards me incentivou a iniciar um planejamento diário das minhas atividades. No domingo à noite tenho feito o planejamento da semana – coisas importantes que preciso resolver – e todos os dias e todos os dias antes de dormir, listo tudo o que preciso fazer no dia seguinte, em que ordem farei e quanto tempo (aproximadamente) gastarei em cada atividade, isso inclui o tempo que gastarei no celular. Tem sido muito útil e me ajudado a utilizar melhor o meu tempo. Ainda não está perfeito, mas, aos poucos vou aprendendo.

Edwards também cultivava o hábito de monitorar os seus sentimentos, cada vez que seus sentimentos parecessem desordenados, ele parava e fazia um autoexame. Seus sentimentos lhe serviam de alerta, como escreveu Lawson:
“Sempre que suas emoções estavam fora de forma ‘no mínimo que fosse’, ele se propunha a dedicar um tempo para entender a razão disso. Percebia que uma falta de paz interior serviria como um alarme de que algo estava errado dentro dele. Poderia ser que algum pecado, ainda não diagnosticado, estivesse causando uma falta de contentamento. Poderia ser que ele estivesse falhando em confiar em Deus, sendo por isso, privado de sua alegria interior. Essas condições que alteram as emoções demandavam sua atenção, a fim de que pudesse fazer qualquer correção necessária”.
Edwards buscava estar sempre consciente de suas emoções para não se tornar refém delas. Ele mantinha um olhar atento aos seus sentimentos, a fim de se corrigir se por ventura eles resultassem de algum pecado como a falta de contentamento em Deus. Essa é uma análise sadia e necessária que precisamos fazer diariamente. Precisamos estar conscientes de nossas emoções e orar por elas.
Por fim, a última resolução de Edwards é talvez uma das mais desafiadoras:
“Que haja algo de benevolente em tudo o que eu falar” (resolução n°70, 17 de agosto de 1723). Que seja este um lembrete diário.
No Amor de Cristo,
Prisca Lessa
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Por mais Teologia nas Mulheres

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Quando decidi criar o “Teologia para Mulheres” minha motivação foi contribuir para que mais mulheres tivessem acesso e interesse pela Teologia sadia e percebendo o quão fundamental o conhecimento, bem como a prática da Palavra de Deus, é fundamental em todas as áreas da vida. Tomei essa resolução, pois percebi o quanto a falta de um conhecimento sólido sobre Deus interfere na vida de muitas mulheres; tornando-as frágeis e vulneráveis a todo tipo de ensino, por vezes aparentemente cristão, mas totalmente nocivo.

A maioria dos programas voltados para as mulheres na igreja se limitam a chás e a abordagem de assuntos bons, porém que não trazem solidez espiritual, de modo que as mulheres nunca amadurecem de fato na fé e se tornam “reféns” de reuniões e aconselhamentos (nada contra essas programações, são ótimas, porém não substituem o contato com a Palavra de Deus). Assim como minha intenção não é que as mulheres se tornem dependentes desse tipo de programações, minha intenção também não é que você se torne dependente deste blog ou qualquer outro recurso, nem mesmo me tornar uma referência em respostas cristãs! E sim que busquem direção na Palavra, que estejam aptas a analisar o texto bíblico e aplicá-lo no dia a dia. Nada nem ninguém pode substituir isso. A Reforma nos deixou esse legado, temos acesso à Escritura em nossas casas, sem mediação, devemos tirar o máximo proveito disso! Há um universo todo a ser explorado, há um Deus infinito a ser conhecido em seus atributos e toda a beleza do seu ser e, definitivamente, não podemos deixar isso em segundo plano.

Estou longe de ser um exemplo, falho todos os dias, inclusive naquilo que eu mesma comunico, mas quando olho para a minha vida, percebo o quanto amadureci – enquanto cristã e enquanto mulher – no momento em que comecei a me dedicar mais em conhecer as Escrituras e hoje meu maior desejo é que muitas outras mulheres vivenciem isso também! Não é um caminho de perfeição, aliás, quanto mais conhecemos a Palavra de Deus, mais descobrimos o pior de nós, mas a graça de Deus tem sido meu alicerce para que dia após dia eu recomece e tente de novo.

Depois que me formei em Teologia, tenho definido meu foco com os seguintes dizeres: “Para que haja mais mulheres na Teologia e mais Teologia nas Mulheres”, e Essa frase se aplica em dois sentidos: primeiramente, no meu desejo de que haja mais mulheres nas turmas de Teologia; mais interesse em não somente dedicar 3 ou 4 anos numa formação profissional, mas também numa formação teológica a fim de conhecer as Escrituras, servir melhor ao Corpo de Cristo – nos mais diversos ministérios, e também em suas casas – educando os seus filhos no caminho do Senhor, na vizinhança – quem sabe iniciando grupos de estudo. Me alegraria muito em ver um bom número de mulheres ensinando Teologia à outras mulheres em suas igreja, em suas casas ou instituições. Em segundo lugar, essa frase reflete o meu anseio de ver mulheres tão mergulhadas nas Escrituras que isso se refletirá em suas atitudes, escolhas, relacionamentos, profissões, conversas. Mulheres cheias da Palavra e cheias de sabedoria. Pra isso, não é preciso passar 4 anos, ou menos, em um seminário, basta começar a usar os recursos disponíveis. Com isso, quero enfatizar tanto o conhecimento quanto a piedade que deve resultar dele; as duas coisas devem andar lado a lado.

Por que estou dizendo isso? Bem, embora o blog ainda esteja dando seus primeiros passinhos, uma das minhas preocupações é que ele não perca essa característica, esse propósito inicial, levar Teologia para mulheres, inserir cada vez mais temas e práticas que trarão crescimento àquelas que estão aqui. Por isso, tenho pensado na melhor forma de servir vocês por meio deste espaço. Gosto muito de escrever textos práticos, meditações, falar sobre vida devocional, feminilidade entre outros assuntos. Boa parte dos meus posts são resultado de momentos que estou vivendo ou alguma reflexão que tive e desejo compartilhar aqui. Isso é bom, porém acho que este ano pode ser melhor. Por isso, tenho trabalhado algumas ideias a fim de tornar o blog mais dinâmico. O propósito é que além dos textos práticos que escrevo costumeiramente aqui, eu consiga desenvolver temas bíblicos com vocês buscando simplificar ao máximo algumas abordagens para que seja interessante e instrutivo. Em suma, em 2018 quero que haja mais Teologia nas mulheres que têm acompanhado o blog, este é o meu sonho e para tanto quero pedir a colaboração de vocês para que façamos isso juntas!

Elaborei este pequeno questionário com perguntas rápidas e objetivas para ter uma noção das necessidades mais gerais de vocês que acompanham o blog e também uma noção de por onde devo começar este trabalho. Meu desejo é mudar o blog, mas organizá-lo e manter um plano mensal que inclua: texto (livre), estudo, devocional, poesia cristã <3, ocasionalmente resenhas, indicações ou textos respondendo a algumas perguntas de vocês. Portanto, esse questionário tem dois propósitos básicos, primeiro me ajudar no planejamento anual do blog e, segundo, para que eu conheça melhor o perfil de quem tem acompanhado o blog e possa adequá-lo da melhor forma possível.

São 10 questões simples, a maioria de múltipla escolha e no final sugestões são bem vindas 🙂

Obrigada!

No amor de Cristo,

Prisca Lessa

 

CICATRIZES

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Pintura: “A incredulidade de São Tomé”, Caravaggio, 1599

Você possui alguma cicatriz?
Me faltariam dedos para contar as minhas.
Elas não foram vencidas pelo tempo,
mas me lembro de como chegaram até mim.

Toda cicatriz tem uma história a contar,
Mas, cicatrizes não revelam somente histórias,
revelam fraqueza,
revelam limitação;
nos lembram que somos feitos de carne,
carne, frágil, facilmente lesionada e marcada.
Cicatrizes nos lembram o que somos:
humanos, eis a nossa condição.

Mas, o que dizer de um Deus marcado por cicatrizes?
Ei-lo ali, curando os enfermos,
mas, veja, as mãos que curam
também carregam as cicatrizes de um carpinteiro;
os joelhos do que se dobram em agonia
também carregam as cicatrizes do menino que corria.

O Deus que cura foi ferido,
o Deus que dá vida se entregou à morte.
Que paradoxo, um Deus que possui cicatrizes,
cicatrizes que trazem cura.
Cicatrizes que contam a história

do homem de dores, transpassado
que disse a Tomé:
“coloca aqui o teu dedo e vê as minhas mãos!
Estende a tua mão e coloca-a no meu lado.
Não seja incrédulo, mas crê!”

Metas para 2018.

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Meta para 2018: estabelecer metas!

Como você está chegando a 2018?

Uma coisa é certa, sempre começamos o ano com milhares de metas e raramente terminamos com todas elas realizadas. Sempre ansiamos por mais, é normal querermos terminar o ano melhor do que iniciamos, mas, isso nem sempre é realidade. Deus nem sempre acompanha nossa lista de desejos, por vezes, Ele “esquece” de assinalar alguns itens que aguardamos ansiosamente, ou, simplesmente, os deixa pra depois. Isso faz parte da vida e faz parte do nosso processo de amadurecimento; Deus tem sua própria “lista” de prioridades e cabe a nós alinharmos nossas prioridades às dEle e não o contrário.

Algo que tenho aprendido com o passar dos anos – e me ajuda a não enfrentar GRANDES frustrações – é não estabelecer metas que “não dependem de mim”. Claro que como cristãos sabemos que, no fim das contas, nada depende diretamente de nós, podemos planejar, investir, mas, no fim, é o Senhor quem dirige os nossos passos. Então, o que quero dizer com não estabelecer metas que não dependem de mim? Vou dar um exemplo básico: casar ou conhecer aquele com quem me casarei (!). Parece legal, mas colocar isso como meta é, simplesmente, correr o risco de terminar o ano frustrada, porque isso está absolutamente fora do meu controle! Pode acontecer, mas eu não posso estabelecer isso e achar que vai se cumprir porque eu decidi! Por outro lado, eu posso posso ser realista em minhas metas:

  • Fazer Mestrado;
  • Viajar pra determinado lugar;
  • Trabalhar com algum projeto social;
  • Economizar um valor X;
  • Ler mais;
  • Comprar algo que cabe no meu orçamento.

Enfim, são coisas que dentro da minha esfera de atuação eu posso fazer acontecer – se Deus assim permitir. E ao final do ano, posso avaliar o porquê não consegui: talvez por falta de planejamento, gastos excessivos, pouco empenho… Será possível mensurar e planejar. Ainda assim, é preciso estar ciente de que criar metas não é garantia de que obteremos o consentimento de Deus, portanto, alinhemos nossas metas à vontade dEle e, se Deus quiser, faremos isto ou aquilo.

Ainda que seu ano não tenha sido dos melhores e muitos planos não tenham se cumprido, NÃO DESANIME! Não deixe de estabelecer novas metas, ou restabelecê-las, tenha esperança! Independentemente do que vai acontecer no ano que se inicia, faça metas para ele, não deixe que o ano passe ao leo. Ainda que sejam metas pequenininhas: acordar mais cedo, fazer um diário, mudar sua alimentação, começar um hobbie, ler isto ou aquilo. Faça! O sentimento de dever cumprido é sempre gratificante, não o perca de vista.

PLANEJE-SE! Parece bobeira, mas sem planejamento, desperdiçamos tempo, dinheiro, oportunidades. Faça um planejamento de curto e longo prazo para 2018, isso será muito útil e, faça um favor a sim mesma, gaste menos tempo na internet: curtindo menos, vendo menos stories; sem perceber, acabamos nos tornando meros espectadores, não temos ação, ficamos entediados e para vencer nosso tédio, passamos ainda mais tempo conectados. Isso é prejudicial, por isso, faça planos –  isso também ajudará a controlar o tempo gasto diante da tela.

Uma das minhas metas para 2018 é começar a escrever intencionalmente para uma futura publicação, tenho procrastinado essa tarefa há anos, e preciso ter disciplina este ano. Já dizia um professor: só existe um jeito de escrever, escrevendo! Então, em 2018 quero escrever mais e melhor 🙂 Compartilho isso aqui como forma de lembrete, como um compromisso comigo mesma e porque, haverá quem me cobre disso.

Dito isso, deixo aqui os meus sinceros agradecimentos por este ano de 2017 que passamos juntos! É muito gratificante ver o blog crescendo, pessoas novas surgindo por aqui e tendo acesso ao conteúdo, isso enche o meu coração de alegria! Espero fazer melhor em 2018, movimentar mais o blog, ser mais útil  e trazer mais textos e reflexões relevantes para nossa edificação. Lembrem-se de mim em suas orações, por trás dos textos há uma pecadora falha e carente da graça de Deus e sem Ele nada posso fazer. Obrigada pela companhia e pelo incentivo!

Desejo a vocês uma ótima passagem de ano e um 2018 repleto de esperança, não uma esperança humana e passageira, mas Cristo, verdadeira esperança! Parafraseando R. M. M´Cheyne: Não ponhamos o nosso coração nas flores deste mundo, pois em todas elas há um cancro. Prezemos acima de tudo a Rosa de Sarom, o Lírio dos Vales, pois Ele não muda.[1] .

Desejo a vocês um FELIZ 2018.

Cristo vos abençoe.

No Amor dEle,

Prisca Lessa.

[1] Não ponha o seu coração nas flores deste mundo, pois em todas elas há um cancro. Preze acima de tudo a Rosa de Sarom, o Lírio dos Vales, pois Ele não muda. O Tempo é Curto, Sermões de Robert Murray M´Cheyne (Editora PES).

 

FUJA DA TENTAÇÃO!

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Run, Forest, Run!

Como você lida com a tentação em sua vida?

Essa pode ser uma pergunta difícil de responder. Raramente paramos para pensar sobre nossas tentações; de onde vêm e porque somos tentados em determinadas áreas enquanto outros não são. Às vezes, parece que somente nós enfrentamos determinadas tentações e, frequentemente, isso nos envergonha. Com o crescente uso das redes sociais se tornou ainda mais fácil julgar segundo a aparência, isso faz com que tenhamos uma visão romântica das pessoas que admiramos e seguimos, e também faz com que tentemos transmitir certa perfeição para aqueles que nos acompanham. Mas, por maior que seja a espiritualidade, piedade ou intelectualidade compartilhada nas redes socais, não podemos nos esquecer de que por trás da tela sempre há um pecador necessitado da graça de Deus; que por trás de cada belo rosto há um coração corrompido pelo pecado. Essa é a realidade de todos nós. Portanto, se você tem enfrentado tentações em sua vida, puxe uma cadeira e vamos falar sobre isso.

#somostodostentados

A Bíblia afirma que todos nós enfrentamos tentações, quer estejamos caminhando com Cristo há cinco, dez ou trinta anos; elas podem não ser as mesmas, mas ninguém está imune. Cada um de nós é tentado por uma razão: todos carregamos a semente da cobiça em nossos corações. Segundo Tiago (2:13-15), a cobiça dá à luz ao pecado. Em outras palavras, ela é a mãe do pecado, podendo se manifestar de formas diferentes para cada um de nós: para uns, ela se manifesta principalmente em questões sexuais, para outros, na área emocional, para outros, em sua relação com o dinheiro, e assim sucessivamente. Mas, seja qual for a tentação, a gênese é sempre a mesma: a cobiça. Quando pensamos em tentação e pecado, nossa tendência é falar dos fatores externos a nós, mas, o que a Escritura nos ensina é que guerras, contendas, adultérios, roubos, maledicência; todo este mal tem sua origem no coração do homem. Jesus foi claro ao mostrar que o que ocorre no nosso coração é tão importante e urgente quanto o que ocorre fora dele (Mt 5:21-22, 27-28), porque na realidade, nossas ações apenas refletem o coração.

Como na água o rosto corresponde ao rosto, assim o coração do homem ao homem.” (Pv 27:19).

Toda tentação tem algo a nos dizer sobre a condição do nosso coração. Se a cobiça é a raiz da tentação e a mãe do pecado, cada vez que pecamos apenas exteriorizamos algo que já estava sendo gerado em nosso coração. Assim como um bebê não nasce repentinamente, o pecado nunca ocorre repentinamente. Jesus disse que a boca fala do que está cheio o coração. Geralmente quando pecamos, nos justificamos com frases como: Eu não sei como fui capaz de fazer/dizer isso; eu estava “fora” de mim – quando na realidade, deveríamos dizer que deixamos que o nosso “eu” tomasse conta de nós.

Na segunda tábua da Lei, o Senhor incluiu como décimo e último mandamento: “Não cobiçarás”; antes deste constam outros mandamentos como: não matarás, não furtarás, não adulterarás. É interessante refletir sobre isso, pois, o último mandamento nos mostra que a cobiça – que em outras circunstâncias poderia ser vista como algo inofensivo – é um pecado radical e mortal. Afinal, o que leva alguém a matar ao seu próximo?!; o que leva alguém a roubar o seu próximo?!; o que leva alguém ao adultério?! Ora, a cobiça! Desde o Antigo Testamento, a Lei aponta para o fato de que o que precisa ser tratado é o coração, o interior do copo, como disse Jesus (Mt 23:26). Tiago sintetiza isso dizendo que somos tentados por aquilo que cobiçamos. Portanto, se queremos vencer a tentação precisamos vencer a cobiça; e, uma vez que ela nasce no coração, é lá que a luta se inicia.

Quero exemplificar com um episódio bíblico muito conhecido: Gênesis 39. A história nos conta que José era assediado pela esposa de Potifar, não temos detalhes do quanto tempo isso durou, o que sabemos é que houve um momento em que as coisas se agravaram a tal ponto que José não teve outra alternativa senão fugir. Por mais que a tendência seja enxergar os personagens bíblicos como heróis, devemos ter em mente que eles eram pecadores como nós. José era um jovem comum, servo de Deus, porém humano; a Bíblia relata que ele era muito bonito, havia sangue e hormônios correndo em seu corpo. Sendo um jovem comum, não seria absurdo pensar que José também enfrentava tentações na área sexual. Afinal, manter-se puro é um desafio enfrentado por jovens de todas as gerações. Para piorar a situação de José, pensemos na mulher de Potifar. Como será que ela era? Imagino que não se tratava de uma mulher feia e sem graça, obviamente que não, afinal, ela era esposa de um oficial de faraó. Talvez essa mulher estivesse acostumada a usar sua beleza e sedução para obter tudo quanto queria; ela não iria se contentar com o não de um escravo.Então, José, se vê diante de um desafio: como lidar com o assédio?Como lidar com tais investidas? Como resistir à tentação de possuir aquela mulher?

O que fez José fugir? Ele não fugiu porque a esposa de Potifar era feia, pelo contrário, José fugiu porque ela era tentadora e ele fraco o bastante para cair na tentação; José conhecia seu próprio coração.

Quando José fugiu da esposa de Potifar, ele não fugiu somente dela, ele fugiu de si mesmo.

Um dos primeiros passos para lidarmos com a tentação é conhecer o nosso coração, Jesus disse que do coração do homem é que procedem os maus intentos – adultério, prostituição, entre muitos outros (Mt 15:19). Com base nesse ensino, podemos concluir que a luta contra o pecado é travada primeiramente do lado de dentro, nossa luta começa no coração. A luta de José não era, primeiramente, contra a mulher de Potifar, mas contra si mesmo. José conhecia o seu coração, ele conhecia sua cobiça, o seu maior problema não era aquela mulher, mas o seu próprio eu. Poderia ser outra mulher, poderia ser uma mulher solteira, poderia ser a mulher de um outro homem. O ponto não é quem está me tentando, mas porque algo tem sido tentação para mim. É preciso descobrir a raiz disso. Essa raiz sempre se encontra no coração.

Independente de qual seja a tentação, a raiz é sempre a mesma: a cobiça. Nesse sentido, somos nivelados, porque, embora manifestemos nossa pecaminosidade de formas diferentes, sofremos a mesma miséria. Nem todos estamos fugindo da mulher de Potifar como José, mas todos devemos fugir da cobiça de nosso coração e, consequentemente, daquilo que nos atrai.

Nossas ações refletem nosso coração, elas são os frutos. Por vezes, estamos tão preocupados em mudar o nosso comportamento; em deixar de cometer determinado pecado, mas, vez após vez, nos vemos caindo no mesmo pecado. A razão disso é que gastamos tempo demais limpando o exterior do copo, e por mais que o limpemos, o copo continua sujo.

Contra o que você tem lutado? Como você tem lutado?

Talvez o seu pecado seja a ira e você tem tentado, em vão, contar até cem, pensar em coisas positivas, ou até mesmo evitado ver ou pensar em determinadas pessoas; mas, o ponto é saber: por que você se ira? A razão pode ser o fato de você não gostar de ser contrariado; seu desejo de ter o controle absoluto de tudo que te cerca, ou, querer que as pessoas te sirvam fazendo todas as suas vontades. Observe um bebê, como ele reage quando não tem suas necessidades supridas? Mesmo tão pequeno, ele expressa sua ira. A diferença entre nós e ele é que não saímos berrando por aí (!). Essa pode ser a raiz do seu pecado, e se for, você tem descontado isso nas pessoas ao seu redor colocando sobre elas a culpa de algo que precisa ser resolvido primeiro internamente – não que os outros não tenham responsabilidade, pois, Paulo diz aos pais que não devem provocar a ira de seus filhos. Mas o fato é que cada um tem a sua parcela de responsabilidade e não devemos nos ausentar da nossa.

Talvez, o seu pecado seja a pornografia, e você se esforce bastante para deixar de ver, colocando mecanismos no celular para impedir isso, tentando dormir mais cedo ou deixando de assistir a determinados tipos de filmes; mas, a pergunta a ser feita é: o que te leva a buscar pornografia? A busca por autossatisfação, impaciência, ansiedade? Talvez você seja um hedonista e faça tudo pelo seu prazer. O centro da sua vida é a sua própria satisfação e para isso você está disposto a desobedecer a Deus. Você busca na pornografia satisfazer a si mesmo, quando a sua busca deveria ser satisfazer a Deus, e, se este é o caso, então, você faz de si o seu próprio deus. Eis o âmago da questão.

Lembro-me que por muito tempo nutri ódio por uma colega. Havíamos enfrentado situações muito difíceis e pensei que a melhor solução seria deixar de vê-la; passei a fazer de tudo para não ir a lugares que eu sabia que ela estaria. Foi assim por quase um ano, crendo que havia vencido o problema, mas, cada vez que eu ouvia o seu nome ou ficava sabendo que algo bom lhe acontecera, eu ficava mal. Eu sempre orei para que Deusremovesse esse sentimento domeu coração. Sem sucesso. Até que comecei a investigar o meu coração. Mudei minha oração, ao invés de pedir a Deus para que tirasse o sentimento, passei a pedir para que Ele me mostrasse a raiz disso. Demorou, mas, com o tempo comecei a ver que meu ódio resultava de inveja. É fato que ela tinha me magoado, mas minha mágoa foi apenas uma máscara para o real problema. Nós éramos tão diferentes, eu criticava o jeito dela – tão oposto ao meu! – mas no fundo, eu queria ser como ela. Quando me dei conta disso, pedi perdão a Deus por ter me deixado levar pela inveja a tal ponto. Não foi fácil e foi um longo processo até que eu pudesse pedir perdão e me reconciliar com essa moça. Ela não soube que eu a invejava, mas, pedi perdão por minhas atitudes contra ela. Passaram anos até que pudéssemos nos considerar amigas, isso foi graça de Deus, pois, eu esperava que não conseguíssemos construir uma boa relação depois de tantas dificuldades, mas, Deus foi bondoso. Sei que não estou imune do ódio e da inveja, mas, me tornei mais desconfiada a respeito do meu coração, cada vez que percebo certa antipatia, logo corro para o médico dos médicos e solicito um exame detalhado do coração (Sonda-me, oh Deus – Sl 139), o Seu diagnóstico é sempre preciso.

“Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida” Pv 4.23

A resposta de José diante da tentação foi a fuga. E é isso que a Bíblia nos exorta a fazer: fugir da tentação. Muitas vezes preferimos ficar flertando com a tentação, temos prazer em ser seduzidos por ela e achamos que essa sedução não irá dar à luz ao pecado. Pensamos que se formos só até certo ponto, podemos obter o prazer da tentação sem a consequência do pecado, assim, damos certa liberdade aos nossos desejos sexuais, certa liberdade à maledicência, ao rancor, à ira, às nossas compulsões. Ingenuamente andamos com a “mulher adúltera acreditando que somos fortes o bastante para não sermos atraídos para o seu leito.

Se você se sente incapaz de vencer um urso, você corre. Nosso problema é que nos achamos fortes demais.

Podemos fazer um paralelo interessante entre José e outro personagem de Gênesis: Caim, o primeiro homicida. Gênesis 4:1-5 nos conta que após ter sua oferta recusada e a de seu irmão aceita, Caim se enfureceu e lhe caiu o semblante. Mas, Caim não percebeu os sinais de perigo; ele não atentou para a fraqueza do seu próprio coração; seu alvo estava em Abel. Porém, Deus, misericordiosamente lhe mostrou o que ele não via: a condição do seu coração; o pecado estava à porta. A cobiça já havia seduzido Caime o pecado estava prestes a nascer; prontoa dominá-lo, mas,ele não devia se deixar dominar.

O pecado sempre quer exercer domínio sobre nós; engana-se quem pensa que pode dominar o pecado que pratica. A prática do pecado é a prova de que é ele que está no comando.

É muito mais fácil perceber pecados externos, pois são evidentes. Dificilmente nos damos conta dos pecados do coração, pois julgá-lo e reconhecer nossas fraquezas secretas é humilhante.

“Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá?” (Jr 17:9)

É muito mais difícil diagnosticarmos a cobiça. A atitude de Deus com Caim revela que essa é uma obra que somente o Espírito é capaz de operar. Somos cegos para as profundas misérias do nosso coração. Deus tem olhos que nós não temos, Ele nos vê além das aparências, Ele nos vê do avesso. Ele viu o interior de Caim.Caim teve a chance de reconhecer sua fraqueza e, com a graça, de Deus vencê-la, porém, decidiu ignorá-la e fazer-se forte aos seus próprios olhos. Na sua percepção levar a cabo seus desejos e satisfazer suas paixões o faria triunfante, mas, na realidade,quem saiu derrotado foi Caim.Esse é o caminho da tentação, ela nos ilude, nos diz que se cedermos aos seus intentos, seremos melhores. A oferta da falta de perdão e da mágoa, por exemplo, parece saborosa ao paladar, mas, logo se torna amarga. Tão logo cedemos à tentação, o pecado nos derrota.

Caim confiou em si mesmo, subestimando o ódio que brotava em seu coração, não atendeu o alerta Divino, ignorou o sinal amarelo e não pôde parar a tempo (não ignore os sinais amarelos!). Nossos sentimentos são como um carro desgovernado, não são seguros!Por não reconhecer sua fraqueza, Caim foi dominado.  Esse é um ponto delicado. Não é fácil reconhecer as fraquezas do nosso coração, não é fácil descortinar o coração e admitir nossos pensamentos, desejos e intenções. Mas, Deus sabe, Ele sempre sabe e nos chama, vez após vez, assim como fez com Caim, a nos despirmos e nos arrependermos. Esse é um chamado diário da graça de Deus. Eu disse aqui que descobri há algum tempo que sentia inveja de uma colega; admitir isso foi difícil, pois, o meu orgulho não permitia. Eu queria ser superior, eu queria não sentir isso, quão humilhante era! Quão humilhante seria para Caim admitir que ele invejou e odiou a seu irmão (mais novo!). Mas, a humilhação é um passo importante para vencermos a tentação. Precisamos de disposição para confessara condição do nosso coração perante Deus. Não é fácil, mas é libertador.

Precisamos reconhecer nossa fraqueza e, então, correr para Aquele que é forte!

É vital que conheçamos o nosso coração para então percebermos nossas fraquezas. Como fazemos isso? Por meio da ação do Espírito de Deus. Ele vê o que não vemos, Ele é quem nos diz: O teu desejo é contra Ti, mas te compete dominá-lo. Ele não apenas diz que devemos dominar nossa cobiça, mas Ele nos ajuda afazer isso, pois sabe que não somos capazes por nossas próprias forças. Quando Deus falou “o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo”, Deus estava estendendo a Caim um convite de graça, um convite para que ele depositasse suas fraquezas diante de Deus. Mas Caim, não atendeu à voz do Senhor e… sabemos o fim desta história.

Uma vez que conhecemos o nosso coração e reconhecemos nossas fraquezas, precisamos parar de alimentar pensamentos, sentimentos e ações que nos induzam ao pecado. Caim cultivou seu ódio por Abel; ao invés de afastar-se do irmão e fugir, ele chegou bem perto, perto o bastante para satisfazer seu desejo. Quão diferente foi José, ele não ficou rondando a esposa de Potifar, pelo contrário José evitava até mesmo a companhia dela. Essa é a forma prática de como devemos lidar com a tentação. Você pode reconhecer o seu pecado, se humilhar, confessar diante de Deus, mas, se não parar de dar chance à tentação, de nada valerá.

Um exemplo prático disso é a forma como alimentamos certos sentimentos: mesmo sabendo que não devemos odiar ao próximo, ocasionalmente nutrimos certa antipatia, nos permitimos falar mal da pessoa; alimentamos aamargura… Se eu sei que relembrar coisas que ocorreram no passado me trará rancor contra meu cônjuge, contra os meus pais, ou qualquer outra pessoa, por que insisto em relembrar?!Se sei que ficar até tarde fora de casa com o meu namorado ou assistir filmes a sós com ele não é saudável, por que fazer isso? Se eu não tenho a menor intenção de me relacionar amorosamente com certa pessoa (ou vice-versa), então, porque nutrir esperanças? Não sejamos como Caim, não podemos subestimar o pecado, é preciso fazer guerra contra ele.

É muito mais fácil e prazeroso deixar que a tentação nos envolva, ela é sempre tão sedutora…Ela diz: “você tem o direito de não perdoar determinada pessoa”; ela alimenta o nosso ego, diz a José o quão bonito e desejável ele é; ela nos dá oportunidades: não há ninguém por perto, ninguém ficara sabendo…Mas, seu fim é sempre amargo, trágico, destrutivo.

Caim não fugiu de si mesmo, porque enxergava o problema como algo externo, seu alvo estava em Abel e não em seu coração. José, contudo, fugiu porque enxergou o perigo que representava para si mesmo.

Mas, como disse à princípio, José não é um herói, ele está bem longe disso. Como qualquer um, ele caiu em tentações ao longo de sua vida; ele foi apenas mais um homem imperfeito que viveu sobre a face da terra. Mas, há um homem perfeito que viveu sobre a terra e não pecou, é nele que devemos depositar nossas esperanças: Cristo Jesus!Ele resistiu a todas as tentações sem nunca pecar. No madeiro Ele venceu o pecado. Por isso, a cruz não é sinal de derrota para o cristão, mas símbolo de vitória; foi nela que Cristo triunfou sobre os nossos pecados! Essa é a nossa esperança eterna, é nesse fato que devemos encontrar esperanças para vencer a tentação, resistir ao Diabo e fugir para Deus. Cristo já venceu esse pecado contra o qual você tem lutado, e somente nEle você encontrará forças para vencer. Quando se sentir tentado, olhe para Cristo, busque-O, clame a Ele, Ele prometeu que nunca nos deixará, nunca nos abandonará.

Quando Eva foi tentada no Jardim, Satanás usou a Palavra de Deus (distorcida) e Eva se deixou iludir, ela creu nas palavras da serpente. O pecado é essencialmente incredulidade; cada vez que pecamos, estamos deixando de crer na Palavra de Deus e crendo nas palavras de Satanás. A tentação é sempre um conflito entre a verdade de Deus e a mentira de Satanás, portanto, quando nos apegamos à Verdade, vencemos à tentação, quando cedemos à mentira, pecamos. Quando Satanás se aproximou de Jesus para lhe oferecer as glórias deste mundo, ele, mais uma vez, usou a Palavra de Deus distorcida, mas, desta vez, não obteve vitória, pois Cristo não somente conhecia a Verdade, mas Ele é a própria Verdade. A Verdade triunfou sobre a mentira. Por isso, um passo importante para vencermos a tentação é nos munirmos com a espada da Verdade, devemos estar afiados na Palavra. Guardá-la no coração para não pecar contra Deus, caso contrário, estamos fadados ao fracasso espiritual.

I João 2:14b: “Jovens, eu vos escrevi, porque sois fortes, e a palavra de Deus permanece em vós, e tendes vencido o Maligno”. Observe a sequência do texto, a lógica é: jovens sois fortes porque a Palavra de Deus permanece em vós, e porque a Palavra de Deus permanece em vós, tendes vencido o Maligno. Não há como vencer a tentação se a Palavra de Deus não tiver lugar em nossas vidas. Uma vida de negligência devocional é uma armadilha e tanto para o cristão! A vitória diária sobre o pecado está condicionada ao uso dos meios de graça, sendo, a oração, a leitura da Palavra, a meditação, a comunhão com a igreja e a obediência às ordenanças do Evangelho. Por isso, olhe para Cristo, nutra uma vida de oração e meditação na Palavra, deixe que ela ilumine e mostre o teu coração e fuja da tentação. Não somos fortes o bastante, mas o Senhor é a nossa força. Fujamos.

Que o Senhor nos ajude!

No Amor de Cristo,

Prisca Lessa

 

Misericórdia, hospitalidade, piedade e coragem – Lições que aprendi com as mulheres da Reforma

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Neste mês de outubro celebramos os 500 anos da Reforma Protestante. Quinhentos anos desde que as 95 teses foram afixadas por Martinho Lutero na porta da capela de Wittenberg na Alemanha. Sem sombra de dúvida, Lutero é o primeiro nome que nos vem à mente quando falamos de Reforma. De fato, ele teve um papel fundamental nesse processo, no entanto, não devemos deixar que a Reforma se resuma a um ou mais personagens específicos. Lutero, Calvino, Knox, Savonarola, Wycliffe, Zwínglio e tantos outros, foram apenas coadjuvantes de uma história cujo protagonista é o próprio Deus Santo, agindo por meio de pecadores.

É também muito comum que, ao falarmos de Reforma Protestante, citemos de cor nomes de homens que fizeram parte deste processo desconhecendo, no entanto, as mulheres que também tiveram participação. Embora, majoritariamente, a ênfase seja dada aos homens, Deus usou muitas mulheres, direta e indiretamente, neste importante momento de nossa história. Quando observamos a biografia de algumas delas vemos que seu amor pelas Escrituras não se expressava somente em palavras, mas em valores e ações.

Em tempos onde a feminilidade bíblica tem sido fortemente questionada, elas são um exemplo de como fé e feminilidade caminham lado a lado. Viver os valores bíblicos acerca da feminilidade não significa alienar-se da Teologia, nem abrir mão do estudo e do conhecimento. Por outro lado, se o conhecimento não tiver a finalidade de nos tornar mulheres piedosas, misericordiosas e humildes, então, ele é vão. Ao olhar a vida dessas mulheres, aprendo que Deus nos chama a servi-Lo com todas as ferramentas que possuímos: nossa família, nosso lar, nossos livros, conhecimento, serviço… Cada aspecto de nossa vida pode e deve ser usado para glória de Deus. As mulheres da Reforma não foram heroínas, eram mulheres pecadoras e falhas como eu e você; esposas, filhas, mães, irmãs. Mulheres tão diferentes, mas, movidas por um único desejo: servir à causa do Evangelho. Muitas mulheres da Reforma poderiam ser citadas neste texto, mas, gostaria de escrever sobre quatro, cujas vidas me ensinam sobre Misericórdia, Hospitalidade, Piedade e Coragem.

Misericórdia – Margaret Blaarer

Irmã do reformador Ambrose Blaarer, Margaret era uma jovem intelectual, versada na literatura clássica, conhecida por sua vida de piedade e boas obras. Com profundo temor e reverência, ela auxiliou seu irmão e a todos quanto tiveram a oportunidade de estar em seu convívio. Margaret foi um exemplo prático de complementaridade bíblica entre homem e mulher: não temos relatos de que tenha sido casada, mas, ao passo que seu irmão Ambrose se empenhava no labor do ensino e da pregação, Margaret “cuidava das mesas”, atendendo aos necessitados em suas aflições.

E quem ousaria dizer que seu labor foi insignificante comparado ao de Ambrose? Pelo contrário, por meio de seu trabalho, ela não apenas deu suporte aos necessitados, mas também a seu próprio irmão: “Margaret, a melhor das irmãs, se comporta como uma arquidiaconisa de nossa igreja, expondo a sua própria vida ao perigo. Diariamente, ela visita as casas onde os enfermos da peste estão sendo cuidados […] Ore ao Senhor, eu lhe suplico, para que Ele não permita que ela, que é o nosso único conforto, seja arrancada de nós”, escreveu Ambrose em 5 de novembro de 1541. Ao contrário de muitas jovens de sua época, que se enclausuravam nos conventos para servir ao Senhor, Margaret escolheu dedicar sua vida exercendo atos de misericórdia na esfera da vida cotidiana, longe dos conventos.

Ela foi uma mãe para muitos – o reformador Martin Bucer sempre se referia a ela em suas cartas como “mãe” e “irmã”, apesar de ela ser mais nova que ele – uma irmã de misericórdia, cuja alegria estava em cuidar das vidas ao seu redor.

Margaret foi incansável em fazer o bem: ensinou muitas crianças pobres a ler, acolheu a muitas viúvas e órfãos em seus sofrimentos, organizou a primeira sociedade de auxílio às mulheres da Igreja Protestante e nos deixou um belíssimo testemunho de Misericórdia.

Ler sobre a história dessa mulher, me faz refletir sobre o quanto tenho desenvolvido a misericórdia em minha vida. Margaret ia a lugares que certamente não eram confortáveis ou perfumados para uma distinta donzela. Sendo uma jovem culta, numa época em que poucas mulheres tinham acesso à educação formal, ela poderia ter se preocupado em usar seu conhecimento para obter prestígio em benefício próprio. Afinal, por que desperdiçar anos de estudos cuidando de pobres? Dedicar sua vida ao próximo não a tornou menor, não desperdiçou seu conhecimento, pelo contrário, nenhum conhecimento é desperdiçado quando aplicado em benefício ao próximo. Estou certa de que ao exercer misericórdia, Margaret se tornou ainda maior: maior que todo seu conhecimento e maior que todas as suas expectativas.

Diferentemente daquela época, hoje vivemos um tempo em que as mulheres têm acesso à educação formal, mas essa educação tem um preço: dizem que se você obtém uma formação, é seu dever investir seu conhecimento na academia ou em benefício próprio (sucesso, bem-estar e melhores salários). Caso contrário, você o estará desperdiçando. Afinal, quem é que estuda tanto para, no fim das contas, cuidar de feridas, cuidar de crianças, servir alimento sem receber um salário por isso?! Parece lógico, mas essa é uma visão secular e não bíblica. Nosso maior compromisso não é com nossos diplomas, mas com o reino de Deus e a sua justiça. O pensamento reformado não negligencia o conhecimento, muito pelo contrário! Ao invés de fazer dele um fim em si mesmo, o coloca sob a ótica correta, a serviço de Deus. Talvez eu tenha dezenas de trabalhos da faculdade para entregar, um TCC para finalizar, mas, se eu não puder estender a mão a um necessitado, ou servir melhor àqueles que estão ao meu redor, será que estou cumprindo meu primeiro chamado? O conhecimento nunca deve ser empecilho ao exercício da misericórdia. Aquele que oprime o pobre insulta o seu Criador, mas aquele que O honra tem misericórdia dos necessitados. (Pv 14:31).

Hospitalidade – Katherine Zell

Esposa do reformador de Estraburgo Mattew Zell, Katherine foi chamada de “mãe dos reformadores”. Ela fez de sua casa um lar para os reformadores que ali chegavam como refugiados. Calvino, Bucer, Zwínglio, entre outros foram alguns dos que tiveram a oportunidade de ser servidos em sua mesa. Certamente, Katherine foi uma Marta de seu tempo: hospitaleira e atenta às necessidades de seus hóspedes.

Era muito comum ter em sua casa, por semanas, pessoas a quem servia de manhã, tarde e noite sem receber nenhum salário por isso. Ela estava ciente de seu esforço quando escreveu: Eu honrei, amei e abriguei muitos homens excelentes e instruídos, com cuidado, trabalho e despesa”. Ela dedicou-se física, emocional, espiritual e financeiramente a acolher seus hóspedes como as Escrituras orientam. Mas, todo seu esforço era também recompensado: “Eu escutei suas conversas e pregações, eu li seus livros e suas cartas e eles estavam felizes em receber os meus [livros e cartas].” Além do privilégio de ouvir a seu marido, Katherine tinha a oportunidade de ouvir outros homens sábios e instruídos. Que imenso privilégio! Certamente ela recebeu infinitamente mais!

O fato de dedicar-se à vida no lar não fazia de Katherine uma mulher menos intelectual. Ela dedicava-se ao lar e ao estudo da Palavra. Foi uma grande defensora das visões reformadas; escreveu livros e panfletos sobre a fé cristã. Dotada de profundo conhecimento bíblico e de uma eloquência natural, ela não desperdiçava uma única oportunidade de difundir o Evangelho por palavras ditas e escritas, “com destreza utilizava a sua caneta em prol da verdade e da paz sempre que achava necessário” [1]. Ela foi como Marta ao se preocupar em servir seus hóspedes da melhor forma e foi como Maria, pois aproveitou cada oportunidade na companhia desses homens para aprender mais acerca das Sagradas Letras.

Katherine dedicou tempo e atenção à boa administração do seu lar; dedicou-se à sua família, e fez de seu lar um deleitoso abrigo para refugiados e, e fez cada um que chegasse à sua porta parte de sua família. Foi também uma defensora da fé reformada por meio de sua caneta e sua oratória. Sua teologia foi difundida por meio de seus escritos, debates e também por meio das inúmeras refeições que serviu generosamente. Com ela aprendi que todo lar cristão deve ser um abrigo para acolher irmãos na fé.

Vivemos numa sociedade consumista e individualista, trabalhamos incessantemente para deixar nossas casas bonitas e abastecidas, mas recebemos cada vez menos pessoas. Seja por falta de tempo ou disposição, geralmente pensamos duas vezes antes de receber pessoas em nossa casa. Mas, quando olho para a vida de Katherine vejo o quão inerente à fé cristã é abrirmos as portas de nossas casas, colocarmos nossa melhor louça à mesa e prepararmos nossa melhor refeição. A hospitalidade é dever de todo cristão e Cristo é nosso maior exemplo: Ele partiu nos deixando a promessa de que iria preparar seu lar para nos receber, e que cearia conosco. Quão profundo é exercemos essa mesma prática desse lado da eternidade. O fato é que em nossos dias temos negligenciado a hospitalidade até mesmo com os membros de nossa própria casa! Cada um se vira a seu modo, cada um faz o seu prato, come quando quer, onde quer. Não há mais lugar à mesa, não há comunhão. Isso dificulta ainda mais a ideia de receber pessoas de fora. Se não pudermos ser hospitaleiros com os membros de nossa casa, como seremos com os de fora? Desenvolver o dom da hospitalidade deve começar pelos nossos. É nosso dever servir bem, acolher e atender às necessidades daqueles que o Senhor nos confiou. De nada vale o conhecimento da Palavra se não resultar em atitudes que fazem parte do caráter cristão. Como Katherine, sejamos Marias em nossa devoção e Martas em nosso zelo por aqueles a quem recebemos. A Escritura nos adverte: Não vos esqueçais da hospitalidade”(Hb 13:2).

Piedade – Anna Reinhard

Esposa de Ulrich Zwínglio, Anna é um caro exemplo de piedade. Quando conheceu Ulrich Zwínglio ela era uma piedosa viúva lutando para sustentar e educar sua família. Suas virtudes cristãs, seu amor e dedicação atraíram a atenção do reformador, cuja compaixão o moveu a auxiliar esta família. Com o passar do tempo as relações entre ambos foram se tornando cada vez mais próximas, até que em 1522 Anna se tornou esposa de Ulrich Zwínglio, uma “amada assistente”, como ele costumava dizer. Seu cuidado e dedicação para com os pobres e necessitados era evidente, o lar da família Zwínglio nunca estava vazio e suas portas nunca se fechavam.

Anna era foi uma esposa fiel e incansável, uma coroa para seu marido. Ela o alegrava e também compartilhava de seus sofrimentos. Além de ser uma ouvinte assídua dos sermões de Zwínglio na congregação, ela também foi sua primeira ouvinte quando ele começou a traduzir a Bíblia. Ele lia seus rascunhos para ela em sua língua materna, fazendo com que Anna amasse ainda mais a Escritura. Para ela não havia maior alegria do que aprender sobre a Palavra de Deus. Ao lado de seu marido, ela lutou para que a Bíblia fosse introduzida nos lares de cada família de sua congregação.

Mas, uma vida de piedade não nos priva de sofrimentos. Cristo é o maior exemplo disso e Ele afirmou que não seria diferente na vida de seus seguidores. Ao longo de sua vida, Anna enfrentou muitas dificuldades e perdas. A vida de Zwínglio era sempre uma enorme preocupação para ela. Ele vivia sob constantes ameaças e ataques. Como uma esposa zelosa, Anna não gostava que Zwínglio saísse desacompanhado e quando não podia estar com ele, solicitava a algum amigo que o acompanhasse em suas saídas. Uma nuvem de ameaças pairava sobre a vida do reformador e Anna temia o pior. Enquanto Zwínglio batalhava pela Verdade nas ruas de Zurique, Anna vencia suas próprias batalhas colocando a vida de seu esposo e família nas mãos do Senhor. Ela foi uma fervorosa intercessora de seu esposo, um apoio constante em seu ministério. Foram muitas as noites em que ela reuniu os irmãos para intercederem por ele e, com certeza, suas orações o acompanharam ao longo da jornada enquanto o Senhor permitiu.

Em outubro de 1531 Anna, que já havia sido viúva antes de casar-se com Zwínglio, recebeu a trágica notícia do falecimento de seu amado esposo. Zwínglio fora morto, esquartejado e queimado por seus adversários. Tal notícia lhe trouxe imenso pesar, mas, não bastasse isso, Anna recebeu a notícia de que seu filho Gerold, seu irmão e seu cunhado também haviam sido mortos à espada e seu genro ferido de morte. Que golpe terrível para o coração de uma mulher, uma esposa e uma mãe! Foram dias difíceis, mas, em meio ao sofrimento Anna pôde contemplar o amor e cuidado de Deus confortando sua alma e levantando pessoas para a ajudarem. Assim como Jesus proveu para sua mãe um filho que a amparasse, o Senhor proveu para Anna um filho, o jovem Henrique Bullinger que a amparou e cuidou até o fim de seus dias.

“De sua morte, em seis de dezembro de 1538, Bullinger comentou: ‘Eu não desejo um final mais feliz para uma vida do que este. Ela partiu placidamente, como uma tênue luz, e foi para o seu lar e para o seu Senhor, louvando e nos encomendando a todos à graça de Deus.’ A sua morte foi como sua vida: doce, bela e serena”. [2]

Anna não viveu muitos anos após esse doloroso episódio. Pouco se sabe sobre seus últimos anos, raramente saía de casa, exceto para ir à igreja. No final de sua vida, ficou muito doente, mas suportou com paciência mais este sofrimento. Sua vida de piedade e contentamento é um exemplo a ser seguido. Foi uma esposa amável e atenta às necessidades de seu marido e a maior incentivadora de seu ministério. “Bênçãos, após as trevas e a escuridão da noite”, essas foram as últimas palavras que ouviu de Zwínglio, e ela prosseguiu crendo que, após os sofrimentos dessa vida, eles se encontrariam “na luz de um novo dia no céu”.

Olhar para a vida de Anna me faz refletir que uma vida de piedade cristã não nos isenta de sofrimentos. Eles nos assaltam quando menos esperamos, muitas vezes, sem explicação. Apesar disso, Anna nunca deixou de buscar ao seu Senhor, ao longo de sua vida ela fortaleceu suas mãos e firmou seus joelhos. Mesmo quando nuvens de tristeza a alcançaram, seus olhos permaneceram voltados para Cristo. Este é um belo exemplo de piedade e perseverança. Nossa verdadeira devoção a Deus é provada pelo sofrimento. A alma piedosa passa pelo fogo para se tornar mais pura, mais contrita e quebrantada. Se desejamos ser mulheres piedosas, não devemos estranhar as dificuldades, mas estar alicerçadas na Palavra para que quando elas surgirem, Cristo seja glorificado em nós.

Coragem – Jeanne D’Albret

As mulheres da Reforma foram marcadas pela coragem. Cada uma foi corajosa por professar e não abandonar sua fé numa época em que o Romanismo imperava. Mas, dentre elas, há algumas cuja coragem se destaca. Tal é o caso de Jeanne D’Albret, rainha de Navarra. Em 5 de dezembro de 1560, Jeanne fez a profissão de sua fé publicamente e, ao lado de seu marido Antoine, se tornou uma forte defensora da fé reformada. Porém, o tempo se encarregou de mostrar a legitimidade da fé de ambos. Enquanto Jeanne se tornou cada vez mais convicta, seu esposo acabou retornando à fé romana. Ele tentou forçá-la a desistir da fé reformada; numa das ocasiões em que foi pressionada, ela replicou: “[…] se eu tivesse, neste momento, meu filho e todos os reinos do mundo sob o meu domínio, eu preferiria arremessá-los todos ao fundo do mar do que fazer perecer a salvação da minha alma.” [3] Sua coragem e fidelidade a Deus lhe custaram caro: seu marido passou a persegui-la por ter introduzido o Protestantismo em suas terras; ela teve que buscar refúgio para salvar a própria vida e separar-se de seu filho para mantê-lo a salvo.

Embora Jeanne não tenha se deixado abalar, ela reconhecia sua fragilidade feminina, por isso, corajosamente, tal como Débora e Ester, reuniu homens dispostos a lutar. Em seu memorável discurso diante de um exército abatido, ela disse: “Soldados […] unamo-nos e concentremos novamente a nossa coragem para defender esta causa que nunca poderá perecer […]. É verdade que o desespero nos sobrepuja? O desespero, aquele sentimento vergonhoso e de naturezas fracas? Se eu, uma mulher, embora rainha, tenho esperanças, como podem vocês temer? […] Deus já nos resgatou de incontáveis perigos […]. Soldados, eu vos ofereço tudo o que está em meu poder e ao meu alcance […] Eu faço aqui um solene juramento diante de todos vós: eu juro defender, até meu último suspiro, esta santa causa que agora nos une, a causa da honra e da verdade” [4].

Ela tentou com todas as suas forças abolir a religião romana em Navarra, colocando sua própria vida e até mesmo a de seu filho em risco para impedir que houvesse um massacre contra os reformados. Sua relação com o povo havia se tornado quase maternal. Quando Jeanne adoeceu gravemente, os huguenotes – protestantes franceses – temiam sua morte e se perguntaram quem cuidaria deles, caso ela viesse a falecer. Mas, mesmo doente, sua coragem não era ofuscada, Jeanne não temia a morte, pois sua vida estava confiada aos cuidados do Senhor. “Eu nunca temi a morte. Eu não ouso murmurar contra a vontade de Deus, mas sinto grande e profundo pesar em deixar meu filho exposto a tantos perigos. Mas ainda assim, eu confio tudo isso a Ele”. Jeanne faleceu em 4 de junho de 1572 com sua Bíblia ao seu lado, um de seus últimos atos foi ordenar que seu filho permanecesse firme à fé reformada. Ela deixou um exemplo de coragem e fidelidade.

Quando olho para a vida de Jeanne D’Albret me lembro de outra rainha que, munida de fé e coragem, usou seu poder e influência para livrar o povo de Deus da tirania: a rainha Ester. Ambas foram mulheres corajosas em seu tempo, mulheres que arriscaram suas próprias vidas pela verdade de Deus.

Ao longo da História não houve uma única geração que não tenha odiado a Palavra de Deus. Em cada uma delas, cristãos tiveram que batalhar pela Verdade; não tem sido diferente conosco. Talvez nossas batalhas sejam silenciosas e veladas, mas, elas existem e acontecem diariamente, seja numa sala de aula, numa prova de vestibular, no trabalho, na criação dos nossos filhos. Onde quer que estejamos, estamos em luta e é preciso coragem para ir contra a mentalidade inimiga da fé em Cristo; é preciso coragem para viver uma vida pautada nas Escrituras.

Ao olharmos para essas mulheres, elas parecem ter sido perfeitas em tudo, tão distantes da nossa realidade! Mas, isso está longe de ser uma verdade, todas elas foram falhas e imperfeitas como nós. Foram mulheres reais com problemas reais, com TPMs e tudo o que acompanha a vida de uma mulher. Nem tudo o que fizeram foi exemplar, mas, o que se destaca em suas vidas é a devoção à Escritura. Essas mulheres do Livro buscaram aplicar as verdades bíblicas em suas vidas.

Temos tido acesso a tantos conteúdos, mas, por vezes, negligenciamos o principal: a leitura e meditação na Palavra. A história dessas mulheres não tem o poder de nos mudar, o último livro lançado pela editora “X” não pode nos mudar, mas a Palavra de Deus, atuando por meio do Espírito Santo, pode! Se você, assim como eu, deseja ser uma mulher piedosa, misericordiosa, hospitaleira, e corajosa, aprenda com essas mulheres: medite na Escritura!

O que aprendo com as mulheres da Reforma é que a Palavra de Deus é o único meio de transformação, o único meio de resistência em um mundo opressor.

Sim, precisamos celebrar os 500 anos da Reforma Protestante! Mas que nossa melhor celebração seja um retorno prático ao Livro que tem sacudido o mundo… há mais de 500 anos! Sola Scriptura.

No Amor de Cristo

Prisca Lessa


[1] GOOD, James I. Grandes Mulheres da Reforma, p. 46, Ananindeua: Knox Publicações, 2009.
[2] Ibid., p.20
[3] Ibid., p.70
[4] Ibid., p.74

Esse texto foi escrito e publicado originalmente no site Graça em Flor (https://gracaemflor.com/licoesque-aprendi-com-mulheres-da-reforma/)

 

Sobre ideais e bolhas de sabão.

how to not care

“No romance clássico, o homem não quer realmente a realização do seu amor. A consumação do seu amor significaria casar-se e ter que lidar com a monotonia da vida diária juntos. O casamento é terrestre demais para o romântico. Ele esbalda-se em obstáculos. Ele quer sofrer sentimentos de amor sem permitir que o amor chegue à fruição num relacionamento permanente e contratual… Um homem que acredita ser sua amada o ideal de perfeição não pode tolerar qualquer sugestão de imperfeição. Esta é uma razão pela qual o romântico não queira aproximar-se demais de sua amada; no fundo, ele sabe que se aproximar-se demais encontrará defeitos e imperfeições.”

(Peter J. Leithart “Brightest Heaven”)

Lendo o texto acima, passei a refletir sobre os nossos ideais:

O ideal é como uma bolha de sabão: é perfeito até que você o toque. Quando você o alcança, ele se desfaz. De longe tudo e todos são ideais. Desse idealismo surge a visão romântica, quer seja da vida, de um lugar, de uma pessoa, de um emprego, de uma missão. Mas, tal qual uma bolha de sabão, o ideal é frágil. Não sobrevive ao toque. Aproxime-se dele, e, você se deparará com o real.

O real, nem sempre tão belo, nunca perfeito. Hora cansativo, hora frustrante, hora conflitante, porém, real.

A vida, deste lado da eternidade sempre será como bolha de sabão: sempre teremos ideais e, quando os alcançarmos, veremos que a realidade é diferente do que almejávamos. Desse modo, ironicamente, alcançar o ideal sempre traz consigo um pouco de frustração. Em Eclesiastes, o Pregador disse que a vida é como correr atrás do vento, de fato, esse vento carrega nossos ideais feito bolhas de sabão.

Mas, veja bem: Não é que o ideal não exista, ele existe sim, só não faz parte deste mundo. Almejamos o ideal porque há uma impressão gravada em nossos corações, a imagem do verdadeiro ideal. Um ideal que não se desfaz pelo contato. Um ideal eterno e papável.
Ideal de nome eternidade. Quando finalmente a alcançarmos, ela não se desfará em nossas mãos. Diferentemente dos ideais desta terra, ela será muito melhor quando finalmente pudermos tocá-la.

Tal como criança que se alegra em um mundo onde bolhas de sabão não estouram ao toque, nos alegraremos quando pudermos tocar a eternidade. Tocaremos e nossos corações nunca estarão decepcionados.
Se no mundo dos homens, o ideal se perde ao toque, no mundo de Deus, ele se torna cada vez melhor a medida que o tocamos.

Até que sejamos transportados para esse mundo onde bolhas não estouram, é mister que saibamos: nesse mundo de cá os ideais, assim como as bolhas de sabão, subsistirão só até que os toquemos.

Graças a Deus, há eternidade, onde o ideal e o real se tocam e caminham juntos, lado a lado.

Prisca Lessa