O Papel da Mulher: baseado na vida de Débora – parte II

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Estudo em Juízes 4 e 5

[Continuação]

O fato de Deus não ter chamado Débora para guiar o exército, e sim para comunicar a mensagem a Baraque, refuta qualquer argumento que se baseie nesse texto para sustentar a liderança feminina quando há homens para liderar, pois além de não colocar sobre Débora tal autoridade, Deus não se agradou da atitude omissa vinda de Baraque. Como consequência, ele teve que dividir a glória da derrota de Sísera com uma mulher.

Infelizmente, a atitude de Baraque não tem sido muito diferente nos dias de hoje. Muitos homens têm recusado a assumir o papel de liderança conforme estabelecido por Deus e, consequentemente, mulheres exercido funções que não competem a elas. Mas é para vergonha de “Baraques” que Deus permite que atitudes como a de Jael ocorram. Isso de forma alguma é sinal de aprovação, essa narrativa deixa isso claro.

É importante ressaltar que embora Débora e Jael tenham sido usadas por Deus nesse contexto em lugar algum lhes é atribuído o título de libertadoras. O chamado continuou pertencendo a Baraque a despeito de suas falhas morais. Nos textos de I Samuel 12:11 e Hebreus 11:32 Baraque é citado juntamente com outros juízes, o que comprova que ainda que Débora tenha auxiliado (e Jael tenha matado Sísera), foi a Baraque que Deus levantou como juiz. Isto também mostra que mesmo em casos como este em que mulheres tiveram de agir em lugar dos homens, o chamado de Deus continua pertencendo a eles e é deles que Deus requer a responsabilidade de liderar. Hebreus reconhece a liderança de Baraque, juntamente com outros juízes importantes na história de Israel. Isso de forma alguma despreza o papel fundamental que Débora teve nessa missão, apenas fortalece o propósito fundamental de Deus onde o homem é quem lidera e a mulher auxilia, de modo que a autoridade e liderança fundamental estabelecida por Deus, repousa sobre o homem.

Voltando ao texto… Baraque convocou e formou um exercito de dez mil homens, conforme o Senhor falara por intermédio de Débora. É importante ressaltar que ele precisava apenas do exército de dez mil homens, Débora não estava inclusa no grupo ordenado por Deus, mas diante da fraqueza de Baraque, ela se colocou ao seu lado. Mesmo aqui a postura de Débora traz uma importante lição para nós mulheres, pois é fato que devido ao pecado, os homens nem sempre estão prontos a cumprir o seu papel, conforme a Palavra de Deus lhes ordena; nesse ponto cabe a nós mulheres dar o suporte e apoio: moral e espiritual, bem como todo o incentivo necessário para levantá-los. Débora é um exemplo de mulher incentivadora da vocação masculina; ela não pisou em Baraque e mostrou pra ele “como é que se faz”, pelo contrário, ela se portou de forma temente buscando (mesmo numa situação tão complexa) honrar e obedecer a Deus.

A postura de Débora é ao mesmo tempo firme, por não permitir que Baraque se entregue à covardia, e também feminina ao incentivar ele e os demais líderes do povo, mostrando a importância de responderem à vocação recebida por Deus. Ao invés de assumir as rédeas, ela fortaleceu Baraque para que ele as segurasse firmemente. É uma atitude que nós mulheres precisamos exercer.

No ultimo momento antes da batalha, Débora deu uma última palavra a Baraque: “dispõe-te” (Almeida atualizada). A palavra qûm (que significa “dispõe-te” ou “levante”) é frequentemente usada no livro de Juízes para se referir ao ato de Deus levantar juízes para libertar o povo e refere-se a assumir autoridade e liderança, Débora em momento algum assumiu a autoridade de Baraque, pelo contrário, ela a reiterou. Além disso, ela não desceu para batalha, Baraque foi a campo com os dez mil homens e ela permaneceu no monte Tabor (4:14). Débora, “heroínas das feministas cristãs” não é um exemplo para o feminismo; ela não foi ensanguentar suas mãos junto com os homens; seu grito de guerra não foi “Yes, I can do it” ela foi até onde pôde para apoiar Baraque e deixou o resto por conta dos homens a quem Deus havia confiado à responsabilidade. Quando a fé dos homens parece esmorecer e sua força é colocada em dúvida, nós mulheres devemos ser auxiliadoras e apoiadoras, fazendo com que eles enxerguem que foi nas mãos deles que o Senhor colocou o poder. Eles só precisam assumir a liderança e ir à batalha (Yes, they can do it!).

O Senhor derrotou todo o exército cananeu ao fio da espada, exceto, Sísera que escapou, conforme a palavra do Senhor e foi para na tenda de Jael, esposa de Héber. Jael era mulher e estrangeira, tecnicamente ela não tinha nada a ver com a história, mas esse texto nos ensina que Deus usa a quem quer para cumprir os seus propósitos. Certamente não era assim que deveria ser desde o princípio, era Baraque quem devia ter matado Sísera, mas a falha do homem não impossibilita o cumprimento dos planos de Deus (v. 9).

Dentre os povos nômades, as mulheres tinham a tarefa de montar as tendas – enquanto os homens cuidavam do gado – para isso, elas usavam martelos e estacas, ou seja, por estranho que isso pareça para nós hoje, as estacas e o martelo usados por Jael eram objetos de uso feminino para aqueles povos. Além disso, as mulheres tinham suas próprias tendas e ninguém podia entrar nelas sem autorização, por isso, Sísera julgou que a tenda de Jael seria um lugar seguro para si. Jael muito astuta usou dos seus “dotes femininos” para atrair a presa. Ela foi extremamente hospitaleira, com gentileza e cordialidade, ela convidou o comandante do exército para entrar em sua tenda, garantindo-lhe que ali estaria seguro (4.18), ofereceu abrigo e uma coberta para se aquecer[1] e ao invés de água, conforme ele lhe solicitou, Jael deu-lhe uma saborosa e relaxante bebida à base de leite[2], certamente, o melhor que ela tinha em casa, não obstante, ela o serviu numa taça especial (hebraico sephel). Sísera se sentiu seguro (v.20) e logo adormeceu. Ela, porém, tomando uma estaca da tenda e o martelo, o matou. Depois disso, ela foi ao encontro de Baraque e lhe mostrou o corpo (v.22).

Deus realmente deu Sísera nas mãos de Jael e ele teve uma morte humilhante, o grande general morto, prostrado aos pés de uma mulher (v.21). É interessante notar que a atitude de Jael, embora surpreendente para a época, não foge do seu contexto de mulher e dona de casa. Primeiramente, ela não saiu à guerra pra lutar, mas cooperou com a obra de Deus servindo em sua própria casa. Ela usou suas características femininas (incluindo também sua força) para armar uma estratégia fatal. Ela não usou armas de guerra, não manuseou espada ou lança, mas ferramentas que conhecia bem, de dentro de sua própria casa. Uma importante lição pode ser aprendida aqui: nós podemos ser úteis à causa de Deus, sendo mulheres, esposas, mães, donas de casa e usando as ferramentas que Ele nos deu. Sísera nunca teria entrado naquela tenda se ali houvesse um homem, Jael fez algo que dificilmente um homem faria. Do mesmo modo, há coisas que só nós mulheres, conseguimos conquistar com nosso jeitinho e sabedoria. Isso deve ser usado em prol da família, da igreja e da sociedade.

Deus requer de nós que O sirvamos dentro da nossa diferença, a nossa feminilidade. Nós podemos servir a Ele sem, necessariamente, ocupar cargos de liderança e autoridade masculina dentro igreja e fora da igreja, da mesma forma como Jael matou Sísera sem se tornar uma guerreira. Deus nos chama a servi-Lo com as ferramentas femininas que Ele nos deu. Há tanto a ser feito dentro da igreja e na sociedade, coisas que os homens não podem fazer, mas que nós podemos. Deus colocou Jael numa situação em que somente ela poderia agir. Aquele ambiente no qual ela estava homem nenhum poderia entrar sem sua autorização, da mesma forma, há áreas, dentro e fora da igreja, nas quais só nós mulheres podemos atuar precisamente. Não precisamos disputar espaço com os homens, há um lugar só pra nós no Reino! Deus nos chama pra sermos como Jael dentro dessas áreas, cooperando para a vitória final do povo de Deus na batalha. Jael foi útil para toda uma nação, sem sair de casa. Podemos e devemos ser influentes a partir do lar. Não nos lançar em lutas corporais, violentas e sangrentas, podemos servir a Deus sem negar a nossa feminilidade.

Servir a Deus dentro da nossa esfera feminina de atuação não é pouca coisa, envolve estratégia, força, uso dos nossos dons, raciocínio. Não precisamos abandonar o lar para servir a Cristo, Deus conduziu Sísera até a tenda de Jael, que a nossa oração seja para que Deus nos permita ser úteis à sua obra dentro do ambiente no qual Ele nos colocou; a despeito das nossas limitações que sejamos úteis a Ele sendo mulheres sábias, sensatas e dispostas.

[1] Uma típica demonstração de hospitalidade oriental (cf. cf Champlin, p. 1015)

[2] Segundo alguns estudiosos (Champlin, p. 1015 e 1019; Davidson, p. 279), a bebida oferecida por Jael pode ter sido uma espécie de iogurte ou requeijão, algo à base de leite fermentado.

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