siga o seu coração não é um lema aceitável

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“Porque a mensagem que ouvistes desde o início é esta: que nos amemos uns aos outros. Não como Caim, que era do maligno e assassinou a seu irmão; e por que assassinou? Porque as suas obras eram más, e as de seu irmão, justas” (I João 3.11-12)

Creio que se pudéssemos resumir toda a mensagem bíblica em uma única palavra esta seria AMOR. Toda a Escritura nos fala acerca do amor: do amor de Deus para com os homens –  manifestado aos homens na Criação, na Queda e por meio da Redenção –, dos homens para com Deus e para com seus semelhantes. Cristo resumiu toda a Lei e os Profetas neste único mandamento: amar. Não há como fugir, o amor é a marca essencial do cristão. Uma marca que está em total contraste com o mundo no qual vivemos. O apóstolo João faz esse contraste de modo muito claro ao longo dessa epístola. Ele está sempre mostrando como as obras daqueles que estão na luz destoam das obras daqueles que estão das trevas. Ele nos convoca a praticar o amor em um mundo cheio de ódio e interesse próprio. Essa antiga mensagem de amor é imutável, é aquilo que temos ouvido desde o início. É aquilo que nossos irmãos no passado também ouviram. Passe o tempo que passar esta sempre será a essência da mensagem de Deus: Ame, a Deus e ao seu próximo.

O apóstolo João gostava de expor suas ideias por meio de contrastes e ao falar de amor, ele falou também sobre o ódio. No v. 12 ele compara o amor bíblico ao ódio que moveu o coração de Caim a se tornar um homicida. Caim matou Abel porque suas obras eram más. Com base nessa conclusão[1], podemos afirmar que somos naturalmente movidos a agir de acordo com o que está em nosso coração. Nossas ações não são meros acidentes, mas espelham o nosso interior: “Como na água o rosto corresponde ao rosto, assim o coração do homem ao homem” (Pv 27:19). Portanto, é nosso dever refletir sobre a condição de nosso coração. Quem sabe se Caim tivesse feito isso, não teria resistido à tentação de assassinar seu próprio irmão?!

Caim não matou Abel porque sua oferta foi recusada. Tal recusa só serviu de mola propulsora para revelar o seu coração. De igual modo, os conflitos que enfrentamos diariamente, em casa, no trabalho, com cônjuge ou amigos, apenas revelam o que está em nosso coração.

Há alguns dias, me irei com minha mãe e com um amigo. Na ocasião eu estava convencida de que tinha motivos justos para estar irada. Afinal, eles haviam falhado comigo; não fizeram aquilo que eu esperava deles. Entrei no quarto e chorei de raiva. Foi então que o Espírito fez com que eu analisasse o meu coração. Por que eu estava irada? Quando Caim ficou irado, ele culpou Abel. Essa é sempre a nossa tendência pecaminosa, encontrar um culpado (à parte de nós, é claro, que somos sempre as vítimas incompreendidas). Mas, a atitude de Deus para com Caim não foi de condolência, mas de confronto. Deus chamou-lhe a atenção: “Por que estás irado, e por que descaiu o teu semblante?” (Gn 4:6). Essa pergunta ecoou em minha mente. Comecei a refletir acerca do meu próprio coração e as motivações por traz da minha ira. Minha ira teria sido provocada meramente pela atitude de minha mãe e amigo para comigo ou havia algo oculto em íntimo que precisava ser revelado?

Sabe, Deus é especialista em revelar coisas. Ele faz isso como ninguém; e, quando faz não encontramos lugar para nossas justificativas. O Senhor me deu o diagnóstico preciso do meu mal súbito: a minha ira havia sido movida por um ego ferido. Sentir que havia sido deixada em segundo plano foi um golpe fatal. Afinal, lá no íntimo era inadmissível que eu não estivesse em primeiro lugar na vida de todas as pessoas que me cercam. Fiquei irada porque os planos que havia combinado com minha mãe não se concretizaram. Minha vontade não foi feita! Isso também era inadmissível. Ter as vontades frustradas é uma tremenda ofensa ao coração cheio de si mesmo. É humilhante para esse coração deparar-se com a verdade de que Deus é o único que pode dizer “farei toda a minha vontade!” (Is 46:10). Entre lágrimas fui confrontada por Deus. Ele revelou o que estava em meu coração e, confesso, doeu. Doeu, mas aprendi que enquanto criatura, não ter minha vontade feita deve causar humildade ao invés de ira. Além disso, eu não devo destilar minha ira sobre as pessoas, mas levá-la a Deus para que Ele me restaure. O contrário disso é orgulho e como podemos ver na vida de Caim, o orgulho só traz ruína (Pv 16:18)

Planos frustrados nos lembram de quem não somos: Deus.

As coisas nem sempre sairão conforme planejamos; isso pode ser frustrante, mas é um fato. Tiago é enfático, podemos dizer que hoje ou amanhã faremos isto ou aquilo, mas a verdade é que só faremos aquilo que o Senhor nos permitir (Tg 4:13-17). Devemos reconhecer humildemente que todos os nossos planos estão sujeitos à vontade de Deus. Dói quando as circunstâncias gritam em nossos ouvidos que somos apenas pó, mas Deus usa dessas circunstâncias para nos livrar da cobiça que cerca os nossos corações.

            Estamos tão acostumados a tratar superficialmente nossos conflitos, colocando a culpa nos outros, nas circunstâncias e até mesmo em Deus, que perdemos a oportunidade de enxergar a feiura do nosso coração e correr para o trono da Graça a fim de obter cura. Não matamos com nossas mãos, mas nos iramos de tal forma que chegamos a sentir ódio. Ódio este que nada mais é do que matar alguém em seu coração (v.15). Se você tem sido influenciado pelo mundo a ponto de crer que o coração do homem é bom e que “siga seu coração” é um lema de vida aceitável, você precisa parar e atentar para o que João está dizendo: o seu coração é tão confiável quanto um assassino. Não confie nele, ele é traiçoeiro. Tão traiçoeiro e enganador que quando está prestes a ser desmascarado, ele logo trata de apontar um culpado para sair ileso. Dificilmente admitimos que o conflito se iniciou porque deixamos de amar a Deus sobre todas as coisas e ao nosso próximo como a nós mesmos. Somos orgulhosos, e por isso, frequentemente, estamos combatendo pessoas, ao invés de combater o pecado.

Precisamos combater o pecado e não as pessoas.

Encarar nossos conflitos analisando quais pecados eles estão revelando não significa que eles deixarão de existir, ou que nossos relacionamentos serão perfeitos. Somos pecadores, e embora saibamos que devemos fazer o bem, nem sempre fazemos (Tg 4:17; Rm 7:15). Reagimos sem pensar e quando nos damos conta, já falhamos. Portanto, encarar nossos conflitos analisando quais pecados eles estão revelando significa que:

  • Dispomos-nos a reconhecer as nossas próprias falhas em primeiro lugar.

Nesse processo somos movidos pelo Espírito a humildemente reconhecer que falhamos e a pedir perdão. Nunca é fácil e nem sempre estamos dispostos a dar este passo, por isso, essa é uma obra contínua de Deus em nossos corações e não um passe de mágica! Eu posso até tentar me justificar diante dos homens, mas, em meu coração sei que não terei justificativas perante Deus.

Sabe aquele pai que diante de uma atitude errada de seu filho faz com que ele volte para se desculpar com o vizinho ou colega a quem ofendeu? Deus age assim conosco, Ele mostra onde falhamos e ordena que nos arrependamos e busquemos reconciliação.

Além disso, passamos a ter maior consciência dos pecados contra os quais precisamos lutar. Se descubro que a minha ira é movida pelo excesso de amor próprio, devo reconhecer que preciso amar mais a Deus, menos a mim mesmo e exercitar mais o amor ao próximo. Com a ajuda do Espírito devo combater esse pecado em meu coração.

  • Tomamos maior consciência de que o maior ofendido em nossos conflitos é Deus.

Somos movidos pelo Espírito a deixar de avaliar a gravidade da ofensa pelo que o outro fez a mim e passamos a avaliar na perspectiva de que toda ofensa é feita primeiramente contra Deus.

Sendo assim mais do que buscar perdão para nós mesmos, devemos nos colocar diante de Deus em arrependimento por pecarmos contra Ele e também incentivar nossos ofensores a se reconciliarem com Deus.

Pequei contra Ti, disse Davi. Ele não menosprezou seu pecado contra o próximo, nem se justificou ou procurou a quem culpar, mas reconheceu que todo pecado é primeiramente cometido contra o Deus que é Santo (Sl 51:4).

Quando passamos a enxergar nossos conflitos sob essa ótica de pecado, logo somos levados à questão principal: o maior ofendido não sou eu, mas Deus.

O inimigo de nossas almas odeia a justiça, odeia quando andamos retamente. Ele, tenazmente, nos incita por meio do pecado em nosso coração a criarmos guerras, não contra o pecado, mas, contra o nosso próximo. Ele vibra quando ignoramos o pecado do nosso coração e nos concentramos tão somente naquilo que o outro está fazendo.

No fim, eu confessei à minha mãe e ao meu amigo o que havia se passado em meu coração. Não tentei justificar, apenas admiti aquilo o Senhor havia tratado comigo. Não foi fácil reconhecer, mas, sabem de uma coisa? Senti grande alívio e alegria por isso. Um peso foi tirado de meus ombros e a reconciliação foi promovida, graças a Deus.

Queridas irmãs, nossa sociedade nos diz que devemos seguir o nosso coração, como se ele fosse um guia seguro para nossas vidas. Mas a Palavra de Deus nos mostra justamente o oposto, não devemos seguir o nosso coração pois ele nos conduzirá à ruína, assim como foi com Caim e com tantos outros homens e mulheres que desprezaram a sabedoria de Deus. Precisamos nos revestir da Palavra de Deus para que não sejamos presas fáceis para o Maligno.

Só existe uma cura para os nossos corações: amar a Deus com todo nosso ser, força e entendimento. Somente assim deixaremos de ser enganadas por nosso coração corrupto e estaremos prontas para amar ao nosso próximo como a Palavra nos ordena.

Concluindo, se o nosso coração é tão corrupto quanto a Bíblia nos diz e, de fato, ele é, então “siga o seu coração” não é um lema de vida aceitável. É como dar um tiro no próprio pé. A Bíblia nos ensina justamente o contrário: Não siga o seu próprio coração, pois “O que confia no seu próprio coração é insensato, mas o que anda sabiamente escapará” (Pv 28:26).

Queridas irmãs, não podemos amar verdadeiramente sem que conheçamos o nosso coração e as limitações que ele nos impõe. Precisamos saber quais são as barreiras que nos impedem de amar como Deus requer, para então derrubá-las pelo poder do Espírito Santo. Somos muito mais propensas a seguir o nosso coração do que a amar verdadeiramente. Enquanto o mundo exalta o amor próprio, a Escritura exalta o amor a Deus e ao próximo; e é neste tipo de amor que devemos nos focar.

Essa reflexão seja bastante desafiadora. Acreditem, escrever sobre isso é infinitamente mais fácil do que viver na prática, por isso minha oração ao fim deste texto é que o bondoso Deus nos ajude a digerir e aplicar estas palavras em nosso viver diário. Pois, se não for por Ele, por meio dEle e para Ele, nada conseguiremos.

No próximo post continuaremos falando sobre o amor, analisando um pouco o contexto no qual nossa geração está inserida. Mais amor, por favor, é o grito da multidão, mas será que amor é o que as pessoas realmente querem? Será que esse amor que a multidão deseja é o mesmo do qual o apóstolo João está falando? Vamos analisar juntas! Que deus nos abençoe.

OBSERVAÇÃO: Vou me esforçar para não deixar intervalos longos entre as postagens para que vocês possam acompanhar a sequência.

Abraços fraternos

No amor de Cristo,

Prisca Lessa

[1] Uma das regras da interpretação bíblica é que nunca devemos interpretar um texto bíblico isoladamente, mas à luz de todo o pensamento bíblico. Em outras palavras, a interpretação de um único texto bíblico deve estar sempre de acordo com o pensamento bíblico geral sobre esse determinado assunto.

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Simple Greyscale Photo Biking Instagram Post (1)Queridas irmãs (e irmãos que acompanham), ando um pouco ausente nos últimos tempos. Não tenho conseguido escrever com a frequência que gostaria, mas louvo a Deus porque textos antigos têm sido lidos e tem servido para a edificação de vocês J. Não quero me deixar levar pela urgência do tempo ou pela mera necessidade de produzir algum conteúdo; esse não é o meu objetivo. Por isso, espero que não se aborreçam com o blog caso não haja textos semanais, quinzenais ou mensais. Façam bom proveito do conteúdo já disponível aqui no blog e, segundo as minhas forças e conforme o me permitir, espero edificá-las por meio das palavras aqui partilhadas.

Eu já disse algumas vezes aqui no blog o quanto fazer devocionais sequenciais em livros inteiros da Bíblia é edificante. Minha vida cristã tem sido profundamente marcada pelos períodos em que me dispus a meditar em livros inteiros da Bíblia em meus momentos devocionais. Os devocionais diários – mesmo os mais excelentes, como Alegria Inabalável, Dia a dia com Spurgeon, Catecismo Nova Cidade, ente outros) – têm o seu valor, mas não podem substituir nosso contato pessoal e direto com a Palavra de Deus. Eles nos proporcionam aquilo que Deus falou com estes amados irmãos em Cristo; no entanto, precisamos ter nossa experiência pessoal com a Palavra de Deus sem intermediações. É um bem necessário para nossa alma.

Há algum tempo iniciei minhas reflexões devocionais na Primeira Epístola de João. Embora já tivesse lido a epístola outras vezes, nunca havia lido de forma devocional. Esta epístola tem sido um confronto à minha fé; me leva a analisar e avaliar a qualidade dela. Dessas leituras e meditações nasceram algumas reflexões que gostaria de compartilhar aqui no blog com vocês. Não com o intuito de ser mais um devocional para acompanharem, mas para incentivá-las a ler e meditar com esmero nas Sagradas Letras. Portanto, farei uma mini série de reflexões nesta epístola de I João. Acompanhem os próximos posts. Que Cristo nos auxilie nessa jornada.

No amor de Cristo,

Prisca Lessa

Vida cristã não é comercial de margarina.

111-e1534433380796Há algumas semanas tive a oportunidade de sair para conversar com uma amiga muito querida, e entre um gole e outro de chocolate quente falamos de diversos assuntos e compartilhamos um pouco das experiências que a vida nos trouxe. Todos nós enfrentamos em algum (senão em todos) momento da caminhada cristã a frustração de não ser um crente perfeito.

O apóstolo Paulo vivenciou esse mesmo sentimento:

Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; com efeito o querer o bem está em mim, mas o efetuá-lo não está. Pois não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse pratico. Porque, segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus; mas vejo nos meus membros outra lei guerreando contra a lei do meu entendimento, e me levando cativo à lei do pecado, que está nos meus membros. Miserável homem que eu sou! quem me livrará do corpo desta morte? (Romanos 7:18-24, grifo meu)

Felizmente, ele encontrou seu alívio: “Graças a Deus, por Jesus Cristo nosso Senhor!” (v.25). Graças a Deus, pois Cristo é perfeito e Ele foi perfeito em nosso lugar, isso alivia o peso dos nossos ombros e nos lembra que o Evangelho não é um processo seletivo onde Deus está observando nossa conduta para ver se somos bons candidatos para preencher as vagas celestiais. Na verdade, nós nunca seríamos aceitos, não fosse Cristo. Por isso, as palavras do apóstolo Paulo são um alívio para mim, porque me fazem olhar para Cristo sempre que me sinto fraca e imperfeita.

Talvez você esteja se perguntando: o que tudo isso tem a ver com o título deste texto? Pois bem, não existe nada mais clichê do que comercial de margarina: eles são todos iguais – uma família feliz sentada ao redor de uma linda mesa de café da manhã cheia de utensílios e frutas, crianças bem vestidas e comportadas pela manhã (!). É quase um conto-de-fadas! Todos estão felizes, bem humorados e com seus sorrisos perfeitos. Certo comercial de margarina dizia que “para o dia nascer FELIZ” era preciso consumir tal marca no café da manhã. É claro que isso não passa de marketing. É óbvio que a vida representada nos comerciais não é real, sabemos disso. Mas, às vezes, a vida cristã nos é apresentada com esse formato de comercial de margarina – seja por pastores, amigos ou conhecidos – como se tudo fosse perfeito.

Infelizmente, ou felizmente, a vida está bem longe dessa perfeição ilusória. Nem todos os dias nós acordamos felizes e sorrindo, nem sempre as crianças se portam com etiqueta e comem como deveriam. Nem sempre o dia “nasce feliz”, às vezes ele nasce nublado. Às vezes o coração amanhece tão pesado que não há forças nem para levantar da cama. Há dias que as nossas orações parecem nem passar do teto, mas, nem por isso somos menos crentes.

Mesmo quando exclamamos: “Miserável homem que sou!”, não deixamos de ser alvos da graça, de fato somos crentes imperfeitos todos os dias, até no melhor dos nossos dias! Há dias em que encostamos nossa cabeça no travesseiro com aquela sensação de dever cumprido: “Ufa, hoje fui uma boa mãe, não gritei com as crianças, fui uma esposa submissa e consegui manter a casa em ordem”. Mas, há dias que o nosso “pé esquerdo” decide dar o primeiro passo para fora da cama e não vemos a hora do dia terminar. Mesmo nesses dias devemos dar graças, graças a Deus por Cristo Jesus.  

Somos crentes imperfeitos todos os dias, até no melhor dos nossos dias.

O ponto que quero ressaltar é que essa é a luta de todos nós, estamos juntos nessa. Mas nem sempre as pessoas admitem suas fraquezas e dificuldades, e isso acaba afastando umas das outras. Se mais esposas “perfeitas” compartilhassem que nem todos os dias “nascem felizes” em suas casas, menos esposas se sentiriam um fracasso. Se as pessoas se reunissem não só para contar suas vitórias, mas também para contar derrotas e sentimentos reais, teríamos mais cristãos consolados por saber que as pedras e tropeços fazem parte da caminhada de todo peregrino. Se mais moças solteiras e piedosas compartilhassem que nos dias que elas se sentem fracas espiritualmente também são atormentadas pela incerteza, talvez outras moças não se sentiriam tão “menos espirituais”. Percebe?

O ideal seria que todos fossem vitoriosos todos os dias, que a mãe que ora para que seu filho seja liberto das drogas estivesse sempre bem e convicta disso, mas há dias em que ela simplesmente não tem forças para lutar e nesses dias em que ela não desce para a mesa farta de café da manhã e prefere ficar encolhida no quarto, ela ainda é vitoriosa em Cristo. Ainda que não se sinta assim. Talvez por isso os grupos de apoio sejam tão úteis na vida das pessoas, ali as pessoas se sentem acolhidas nas suas fraquezas, não se sentem julgadas. Elas não precisam esconder quem são porque todos ali também precisam de ajuda e é de fato isso que os une, eles tem consciência de que estão todos no mesmo barco e remam juntos para sobreviver.

A igreja é em algum sentido grupo de apoio para aqueles que estão lutando contra o pecado e os males deste mundo. Ninguém vai à igreja porque não precisa de ajuda, porque é santo, perfeito, e autossuficiente, mas o irônico é que quando chegamos lá simplesmente fingimos que não precisamos de ajuda. É como ir ao AA e não admitir que tenha problemas com álcool, porque, afinal, todos nós estamos nessa luta contra o pecado.

Que bom seria se aquele casal forte com toda a sua experiência de 40 anos de casamento compartilhasse com esse jovem casal como fizeram para sobreviver às crises do matrimônio. Ambos seriam fortalecidos! O capítulo dois de Tito traz um sábio conselho: as mulheres mais velhas devem “orientar as mulheres mais jovens a amarem seus maridos e seus filhos, a serem prudentes e puras, a estarem ocupadas em casa, e a serem bondosas e sujeitas a seus próprios maridos, a fim de que a palavra de Deus não seja difamada.” (v.4,5) Com o passar do tempo, parece que esse princípio tem se perdido na vida da igreja, o individualismo tem feito com que as pessoas se fechem em suas vidas privadas e aparentemente perfeitas.

Particularmente, me sinto muito feliz quando alguém que já passou pelo que eu estou passando separa algumas horas do seu dia para compartilhar isso comigo, isso me traz tanto alívio, tenho aprendido a ter prazer em fazer o mesmo para com outras pessoas, o crescimento é mútuo. Essa mutualidade cristã é bíblica e necessária para todos nós.Na vida real, fora do comercial de margarina, pais cristãos também se frustram com os filhos por não corresponderem 100% às suas expectativas pessoais e profissionais. A Bíblia é um livro incrível pois ela não mostra só o lado bonito da vida, ela mostra os bastidores sem as luzes e o figurino arrojado, mostra os atores cansados e com olheiras, mostra o flagrante do grande rei pego em adultério, mostra o discípulo fiel negando seu Mestre, mostra até mesmo o Filho de Deus cansado e com lágrimas. Ela nos mostra o outro lado da vida que tentamos abafar.

Com isso não quero dizer que devemos viver as nossas vidas de qualquer jeito, quando alguém vai a um grupo de apoio vai para obter ajuda e melhorar, não é mesmo? A vida cristã também é assim, hoje eu estou aqui, mas, amanhã não estarei mais e poderei ajudar aqueles que passarão pelas mesmas lutas que eu e assim prosseguimos.

Só quem enfrentou um rigoroso inverno é capaz de dizer aos que estão no fim do outono como devem se vestir para enfrentar o frio, é o ciclo natural da vida.

O evangelho proporciona muitos momentos felizes ao redor da mesa e momentos assim nos fazem sentir um gostinho do céu, mas ele não é feito só de momentos felizes, ele é real e feito para pessoas reais. Que possamos ser um canal que manifesta a graça de Deus para pessoas comuns, quebrando a teologia sutilmente triunfalista que ensina que se recebermos a Cristo todos os nossos dias nascerão felizes, o casamento será perfeito, os filhos serão transformados em anjos, e tudo será mais fácil. Lamentavelmente, isso tem feito com que muitas pessoas abandonem o Evangelho quando essas “promessas” não se cumprem. Que a nossa vida cristã seja genuína, com seus altos e baixos. Fujamos da superficialidade.

Talvez você, assim como eu, também deseje que as pessoas tirem as máscaras e sejam mais reais e acessíveis dentro da igreja, mas aprendi que devemos ser a diferença que almejamos ver. Por onde começar? Você pode começar com um bate-papo franco acompanhado de uma caneca de chocolate quente numa tarde de inverno. Falar da vida como ela é com outros cristãos, compartilhar nossas lutas e fraquezas, é um meio de edificação mútua. No fim das contas percebemos que a estrada é sempre a mesma; mudam-se os personagens, mudam-se as paisagens e as estações, mas todos nós passamos pelas “quatro estações da vida” e percorremos o mesmo caminho rumo à cidade celestial. Que tal compartilhar os lugares por onde você já passou com aqueles que ainda vão passar? Que tal falar de onde você está agora? Você pode se surpreender ao descobrir que tem mais gente nesse mesmo lugar. Somos grandemente fortalecidos em nossa caminhada quando podemos compartilhar e crescer uns com os outros longe das máscaras de perfeição e de superficialidade.

Concluo com uma famosa frase atribuída ao reformador Martinho Lutero, que há muito tem sido um lembrete na minha caminhada: “Sei que não sou o que deveria ser, mas sei que, pela graça, já não sou quem fui”. Ainda sou fraca, nem sempre reajo ou creio como deveria, mas graças a Deus por Cristo Jesus, pois já cheguei até aqui e sei que um dia estarei assentada numa linda mesa, rodeada por pessoas perfeitas, onde todos estarão sorrindo e todos os dias nascerão felizes!

No amor de Cristo
Prisca Lessa

Este post foi publicado no blog do Ministério Graça em Flor, neste link.

Conferência Fiel Mulheres

Queridas, neste final de semana será realizada a Conferência Fiel Mulheres, uma oportunidade ímpar de aprendermos mais sobre a Palavra de Deus através de homens e mulheres que têm sido usados por Deus no Brasil e no mundo. Este ano o tema será: FÉ Feminina em um mundo Feminista. Quero incentivá-las a acompanhar as transmissões ao vivo pela internet. Deixo aqui o horário das programações.

Update: No site do Voltemos ao Evangelho estão disponíveis as reprises das palestras. Confira no link

 

 

Quando a alma grita, sente fome de Deus

Melancolie de Albert György, localizada às margens do Lago Genebra

A busca de plenitude naquilo que é finito resulta em um infinito vazio. O engano do nosso coração é pensar que a realização dos nossos anseios é o que trará o infinito deleite que tanto buscamos. Isso frequentemente produz em nós uma grande insatisfação com a vida: com quem somos, com o lugar onde estamos, as coisas que fazemos, as pessoas com quem nos relacionamos e produz a empolgante ilusão de que uma mudança em algum desses aspectos da vida irá nos proporcionar plena satisfação. O fato é que uma mudança pode até ser empolgante a princípio, mas passado algum tempo nos deparamos novamente com aquele mesmo vazio e insatisfação e então (re)surge a necessidade de nos lançar em uma nova busca por novos relacionamentos, novos ambientes… Um círculo vicioso.

Felizes aqueles que no auge do vazio correm para Deus a tempo de descobrirem que quando a alma grita é porque está com fome de Deus! Lugares, pessoas, entretenimentos podem até disfarçar a fome por um tempo, mas não nutrem a alma daquilo que ela realmente necessita: Seu Criador. “Afasta, pois, do teu coração o desgosto e remove da tua carne a dor, porque a juventude da vida e a primavera são vaidade. Lembra-te do teu Criador nos dias da tua mocidade, antes que venham os maus dias, e cheguem os anos dos quais dirás: Não tenho neles prazer” (Eclesiastes 11:10 – 12:1)

Exercitando o contentamento em um mundo descontente.

contentamento

Contentamento: independente de circunstâncias externas; contente com a sua sorte ou fortuna, como os recursos que possui, ainda que limitadíssimos[1].

O descontentamento – ou a falta de contentamento – está presente no coração dos homens desde o Éden. Este fato é fundamental para compreendermos que o contentamento não tem a ver primeiramente com aspectos externos, mas com a condição do nosso coração pecaminoso. Adão e Eva estavam no melhor lugar do mundo, onde tinham tudo quanto precisavam, não havia outros seres humanos com quem pudessem comparar suas vidas. Não havia um homem mais bonito, uma mulher mais formosa, famílias mais perfeitas ou empregos melhores. Eles tinham tudo quanto precisavam bem diante dos seus olhos. No entanto, havia algo que eles não podiam ter: a glória de Deus; e foi justamente isso, essa única coisa que lhes era inalcançável que eles desejaram: “[…] no dia em que dele comerdes se vos abrirão os olhos e, como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal”.

Adão e Eva estavam no melhor lugar do mundo, mas nem mesmo o melhor lugar do mundo é o bastante quando falta contentamento.

Vivemos em um mundo descontente. Essa não é uma característica exclusiva desta geração, pois, embora o pecado encontre novas formas de nos seduzir e enganar, sua essência é a mesma. O inimigo de nossas almas continua a nos sugerir, assim como no Éden, que nós realmente não temos tudo o que precisamos. Que há algo maior e melhor “lá fora” e enquanto nós não atingirmos esse ”fruto” desejável, não estaremos vivendo plenamente nossas vidas. Ledo engano.

Quantas de nós não têm sido vítimas desses pensamentos mentirosos?!

A incredulidade é a raiz do descontentamento. Assim como Eva, nos tornamos descontentes porque acreditamos que Deus não está nos dando o melhor que poderia nos dar; Ele está nos privando de algo maior e melhor, exatamente aquilo que nos falta para sermos felizes. Essencialmente, acreditamos que Deus está nos enganando. Veja o quão perigoso é o descontentamento: a ponto de chamar a Deus de mentiroso!

É fato que em nosso coração existe algo, um anseio que supera todas as experiências humanas que experimentaremos nesta vida. Esse anseio se refere a algo maior do que nossos braços frágeis são capazes de abraçar agora: trata-se de um profundo anseio pela eternidade. Como escreveu Pascal: “Há um vazio do tamanho de Deus no coração do homem, que não pode ser preenchido por qualquer coisa criada, mas somente por Deus, o Criador, que se fez conhecido através de Jesus”. O problema é quando acreditamos que esse vazio pode ser preenchido com outras coisas que não o próprio Deus. Enquanto eu não tiver um belo corpo, namorado, marido, filhos, o carro do ano, uma casa maior, viagens, diplomas eu não serei plenamente feliz. Estamos olhando para baixo, quando, na realidade, deveríamos olhar para o alto! Todas essas coisas são boas, mas fazem parte desse mundo caído e, como tal, não podem satisfazer um anseio eterno. Tão logo as obtemos, passamos a aspirar por algo a mais – aquele sapato maravilhoso só é tão maravilhoso até que se torne seu! Indo mais a fundo, C.S. Lewis disse que: “os desejos que surgem em nós quando nos apaixonamos pela primeira vez, ou pensamos pela primeira vez em um país estrangeiro, ou nos deparamos pela primeira vez com um assunto que nos deixa animados, são desejos que nenhum casamento, viagem ou aprendizado podem realmente satisfazer. Havia algo que captamos naquele primeiro momento de desejo, mas que se esvai com a realidade. Acho que todos sabem do que estou falando. A esposa pode ser boa, os hotéis e paisagens podem ser excelentes, e a química pode ser um negócio muito interessante, mas algo nos escapou”.

Calma, Lewis não está tentando trazer uma nuvem de pessimismo sobre o nosso coração, ele está apenas nos lembrando que se confiarmos que só estaremos plenamente felizes quando obtivermos aquilo que nos falta, seremos completamente infelizes, pois ainda que conquistemos tudo quanto os nossos olhos desejarem, continuaremos descontentes. O Pregador não nos deixa dúvidas quanto a isso: “Tudo quanto desejaram os meus olhos não lhes neguei, nem privei o coração de alegria alguma […] eis que tudo era vaidade e correr atrás do vento” (Ec 2:10,11). O que precisamos saber é que ainda que tenhamos as melhores coisas e as melhores pessoas ao nosso lado, se nosso anseio não for preenchido por Deus, passaremos a vida como loucos correndo atrás do vento.

“Os livros e a música nos quais pensamos ter encontrado beleza nos trairão se confiarmos neles. A beleza não está neles, ela surge por meio deles, e o que veio por meio deles era anseio. Se forem confundidos com o que realmente desejamos, transformam-se em ídolos tolos. Ídolos que ferem o coração de seus adoradores, pois não são o que eles desejam, são tão somente o perfume de uma flor que não encontramos e o eco de uma canção que não ouvimos, notícias de um país distante que ainda não visitamos” (C.S. Lewis)

O engano do mundo é crer que a plenitude de nossos desejos e afeições pode ser suprida ou alcançada à parte de um relacionamento real e profundo com Deus. Mas, nós cristãos sabemos que Deus é a verdadeira fonte de nossas aspirações. Satanás também sabe disso. Ainda assim, ele não perde a chance de nos fazer ofertas tentadoras. Veja bem, ele sabe que não somos tão ingênuos a ponto de abraçar o pacote: “a sua felicidade se encontra aqui”, mas ele nos oferece ofertas sutis como: “por que eu não posso ter isso?” ou “por que só eu não tenho isso?” e “se eu tivesse isso, as coisas seriam mais fáceis ou melhores pra mim”. Assim como os ímpios, somos diariamente bombardeados por informações que sempre nos sugerem que precisamos de algo. Satanás sabe do nosso anseio pelo eterno e traiçoeiramente tenta nos comprar com falsas propagandas. Como cristãos todos nós lutamos contra o descontentamento. Não pense que você está sozinha nessa.

Seja por meio das redes sociais, da televisão, das conversas entre amigos; para onde quer que olhemos o mundo está sempre gritando que precisamos disto ou aquilo para sermos mais felizes. Por isso, viver contente em um mundo que te puxa para o descontentamento é um desafio diário e difícil. Nessas horas precisamos mais uma vez voltar os nossos olhos para as Escrituras e ver o que ela tem a nos ensinar.

Em uma época em que não havia Instagram, um homem cristão também lutou contra o descontentamento e, pela graça de Deus, venceu!

No texto de Filipenses 4:11-13 o apóstolo Paulo fala que aprendeu a viver contente em todas as circunstâncias. Merece atenção o fato de Paulo dizer que aprendeu a viver nessa condição de contentamento. Não foi do dia para a noite, minhas irmãs, e certamente não foi fácil. Mas, a caminhada cristã do apóstolo Paulo, cheia de lutas, privações e muitas tribulações serviu aos propósitos de Deus produzindo, entre muitas coisas, contentamento em sua vida. Isso nos leva a refletir no fato de que a caminhada cristã requer paciência. Não é sem muitas lutas que o doce fruto do Espírito é aperfeiçoado em nós. Pode ser clichê, mas aquela frase de que quando pedimos paciência a Deus Ele não nos dá paciência e sim tribulações para que aprendamos a exercer a paciência é muito real. É por meio das tribulações que o Senhor nos molda, é por meio do fogo que o ouro é purificado.

Não espere que o contentamento nasça em seu coração como uma brisa de verão, ele será forjado no fogo da privação. Foi por meio de muitas tribulações que o apóstolo Paulo aprendeu a viver contente.

Todo esse processo leva tempo! Por vezes olhamos para alguns irmãos na fé e eles parecem estar num estágio de santidade tão avançado! “Uau, parece que ele já nasceu pronto”. Então, olhamos para nossa condição e parece que estamos lá no início da corrida quando eles já estão na reta final. Parece que nunca chegaremos lá. Isso pode ser terrivelmente frustrante, mas pense comigo: se o apóstolo Paulo, que escreveu a maior parte do Novo Testamento (só pra início de conversa) teve que APRENDER a viver contente; isso significa que todo o cristão passa pelo estreito caminho da santificação. Ninguém nasce pronto, esse é o processo de uma vida inteira.

Adapte-se

Preste atenção nisso: o contentamento de Paulo não floresceu quando ele recebeu o que tinha falta, mas quando ele não recebeu! É na privação, esse solo difícil de arar, onde muitas das bênçãos de Deus florescem. Por isso, deixo aqui um conselho: se você está descontente por aquilo que lhe falta, experimente adaptar-se. Soa estranho, mas é isso mesmo. Ao invés de lamentar-se e lembrar-se disso diariamente, viva! Prossiga, planeje ou replaneje, se for preciso, mas permaneça na vontade de Deus. Pode ser que Deus não vá te dar aquilo que você almeja. Ainda assim, você terá aprendido a viver contente em meio à privação, isso é um grande ganho. Ou, pode ser que, assim como Paulo, em algum momento Deus conceda aquilo que você almeja; mas não antes de você ter aprendido a viver contente sem isso. Você poderá então se juntar ao apóstolo Paulo e dizer: Alegrei-me sobremaneira no Senhor pela dádiva recebida. Digo isso, não porque recebi aquilo que me faltava até porque, aprendi a viver contente em toda e qualquer situação, sendo honrada ou humilhada, em todas as coisas tenho experiência: tudo posso naquele que me fortalece! (paráfrase de Fp 4:11-13)

Te incentivo a lembrar-se disso: “tudo posso naquele que me fortalece”. Talvez esse tenha sido o coro de Paulo nos dias difíceis. Que seja o nosso também: “tudo posso naquele que me fortalece”.

Exercite a gratidão

Ao lermos as epístolas de Paulo, chama a atenção o fato de que mesmo em cadeias, ele sempre tinha motivos de gratidão. Paulo enxergava tantas razões para render graças a Deus que diante delas, suas aflições se tornavam leves. Paulo constantemente dava graças pela vida dos irmãos na fé. Devemos ser gratos não somente por nós, mas ser capazes de nos alegrar e dar graças por aquilo que Deus tem feito na vida de nossos irmãos. Quando lutamos conta o descontentamento, corremos o risco de nos tornarmos ingratos por nós e ingratos também por aquilo que Deus tem feito na vida do nosso próximo. Isso é muito nocivo. Devemos prevenir esse mal exercendo gratidão em duas frentes: por nós e pelo nosso próximo.

Leia a Bíblia e faça oração

Esse simples corinho infantil é profundamente verdadeiro. Cultive uma vida de leitura e oração diária. Isso é FUNDAMENTAL pra uma vida de contentamento em Deus. O descontentamento cria raízes no coração onde a Palavra de Deus não está sendo semeada e nutrida. Por experiência própria, sei que quanto menos leio a Bíblia mais descontente me sinto com a vida que tenho. A Palavra de Deus é um porto seguro onde encontramos refúgio em meio aos nossos temores.

Desconecte-se

Tenha cuidado com o tempo gasto acessando as redes sociais. Elas são uma ferramenta muito útil em nossos dias e nós não as demonizamos, no entanto, como tudo nessa vida, precisamos reconhecer os perigos que nos rondam quando as utilizamos em excesso. Por vezes elas são como vitrines nos mostrando aquilo que não temos e que “precisamos” ou nos fazendo pensar que “a grama do vizinho é sempre mais verde”. O contentamento requer que nos policiemos quanto aos nossos pensamentos e sentimentos, por isso desconecte-se um pouco.

Falamos tanto sobre o descontentamento, mas talvez você esteja se perguntando: Por que o descontentamento é tão grave? À primeira vista, ele parece ser algo inofensivo e banal, mas ele é pecaminoso.

Primeiramente, o descontentamento desonra a Deus. Deus não somente nos tem concedido bênçãos diárias, como nos concedeu a bênção eterna da salvação. Em Cristo Jesus Deus supriu a nossa maior carência: um relacionamento real com Ele. O descontentamento desonra a Deus porque não reconhece os grandes feitos de dEle por nós.

O descontentamento põe em dúvida o caráter de Deus (incredulidade). O Salmo 84:11 diz que “O Senhor é sol e escudo; o Senhor dá graça e glória; nenhum bem sonega aos que andam retamente”. Sonegar significa ocultar algo, dizer que não tem algo que de fato tem (mentir); não pagar ou contribuir com alguma quantia devida; não partilhar informação com outros[2]. Não foi exatamente disso que a serpente acusou a Deu no Éden? (Gn 3:5)

O descontentamento revela nossa ingratidão. Quando estamos descontentes passamos mais tempo pedindo do que agradecendo, como as filhas da sanguessuga nós só sabemos dizer: “dá, dá” (Pv 30:15) ao invés de nos curvarmos a Deus em gratidão.

Por fim, o descontentamento produz inveja. Uma vez que você não tem aquilo que deseja, você passa a invejar aqueles que têm. A inveja é um pecado que preferimos não mencionar. É muito fácil você ouvir alguém dizer, “sou orgulhoso”, mas, dificilmente ouvirá alguém dizer, “sou invejoso”. Não quero me aprofundar nesse pecado, basta lembrarmos que Caim matou Abel por inveja. Sabemos o quão destrutiva é a inveja se não for combatida pelo poder de Deus.

Portanto, não se engane, o descontentamento está bem longe de ser algo inofensivo. Dito isso, quero deixar aqui alguns lembretes para o coração descontente:

– Lembre-se em que você tem crido e tenha certeza de que Deus te ama tanto que reservou o maior e melhor tesouro em um lugar em que nem a traça nem a ferrugem podem corroer. Esse tesouro não se desgasta com tempo, ele é eterno (2 Tm 1:12; Mt 6:20).

– Lembre-se que não há nenhum bem que Deus já não tenha concedido a você em Cristo Jesus (Ef 1:3).

– Lembre-se que Deus é um bom Pai, Ele não concede cobras nem escorpiões a seus filhos necessitados, mas o melhor segundo a Sua vontade que é boa, perfeita e agradável. (Lc 11:11-13; Rm 12:2)

– Lembre-se que só existe um lugar onde o nosso coração encontra descanso e contentamento pleno: em Cristo. Quando o descontentamento te assolar, corra para Cristo e encontrarás descanso para a alma (Mt 11:28-29; Sl 131:2, 147:3).

Que o Senhor nos ajude a exercitar o contentamento nesse mundo descontente e refletir sua glória em todas as circunstâncias.

“Fizeste-nos para Ti e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em Ti” (Agostinho)

Em Cristo Jesus,

Prisca Lessa

[1] Fonte: Dicionário Bíblico Strong Léxico Hebraico, Aramaico e Grego de Strong

[2] Fonte: Dicionário Informal

DEVOCIONAL.

No capítulo 20 do evangelho de João um verbo se repete com certa frequência:
v. 1 “[Maria Madalena] viu a pedra revolvida”
v. 5 “[o outro discípulo] viu os lençóis de linho”
v. 6 “[Pedro] também viu os lençóis”
v.8 “[o outro discípulo] viu, e creu”
(No v. 11 também nos é dito que Maria olhou para dentro do túmulo)
v.12 “e [Maria Madalena] viu dois anjos vestidos de branco”
v.14 “[Maria Madalena] voltou-se para trás e viu Jesus em pé, mas não o reconheceu”
v. 18 “Então, saiu Maria Madalena anunciando aos discípulos: Vi o Senhor!”
v. 20 “Alegraram-se, portanto, os discípulos ao verem o Senhor”
v. 25 “Disseram-me [a Tomé], então, os outros discípulos: Vimos o Senhor. Mas ele respondeu: Se eu não vir nas suas mãos o sinal dos cravos […] de modo algum crerei”
v. 27 “Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos”
v. 29 “Porque me viste, creste? Bem aventurados os que não viram e creram”

João está destacando a condição de incredulidade dos discípulos:

Eles viam mas não conseguiam enxergar e perceber o que estava acontecendo. Viram os lençóis, viram o túmulo vazio, mas não enxergaram a realidade contida nesses fatos. Estavam cegos. Maria viu o túmulo vazio, viu os anjos, (num primeiro momento) viu a Jesus, mas não enxergou a realidade dos fatos; permanecia inconsolável em sua tristeza. Até que finalmente, seus olhos foram abertos e ela VIU o Senhor e toda a sua visão acerca dos fatos foi transformada. Ela, então, pôde testemunhar, não somente que viu ao Senhor, mas o cumprimento dos eventos profetizados por Jesus acerca de sua morte e ressurreição.

Os discípulos estavam reunidos e amedrontados, tiveram seus olhos abertos, sua incredulidade caiu por terra quando viram o Senhor. Mas, Tomé não viu, e porque não viu permaneceu na incredulidade (da qual os demais haviam sido libertos). E ele logo disse o que os demais não haviam dito: “Se eu não vir, DE MODO ALGUM crerei.” Perceba a obstinação do discípulo. Em outras palavras, ele admite que sua fé estava condicionada ao que via. Se não visse jamais, não creria jamais.

Que declaração chocante, a de Tomé, mas, afinal, não era esta a condição dos demais? No fundo, todos os discípulos partilharam da mesma incredulidade, mas, Tomé chegou por último e foi o bode expiatório.

Todavia, Jesus, conhecendo a pequena fé de seus discípulos, mais uma vez se mostrou e disse a Tomé: “vê”. “Não sejas INCRÉDULO [o Mestre apontou o problema], mas crente [e deu a solução]”.

Tomé também viu o Senhor e seus olhos se abriram. Ele foi liberto da incredulidade: “Senhor meu é Deus meu”. Que bela confissão, mas, Jesus não se deteve diante desta declaração e o repreendeu: “Porque me viste, creste? Bem-aventurados os que não viram e creram”. A repreensão foi severa, mas não foi só para Tomé, foi para todos que, cegos pela incredulidade, não conseguem enxergar a verdade.

É possível que mesmo sendo discípulos de Jesus passemos por crises de fé em certos momentos. Cristo chama a nossa atenção para isso, Ele não passa a mão em nossa cabeça e diz: “Tudo bem ser um pouco incrédulo”. Cristo teve misericórdia de Tomé, ao aparecer para Ele, mas, ainda assim o repreendeu: seja crente! Pare de ficar se lamentando pelos cantos, pare de impor condições a Deus, seja maduro na fé, creia, o Senhor já te deu todas as ferramentas necessárias para exercitar a sua fé, então, exercite-a!

Saiamos dos campos da falta de ânimo, da falta de fé e do lamento, Cristo vive! E que a mensagem da ressurreição seja proclamada: O Senhor está vivo!

Um bom domingo de Páscoa.

No amor de Cristo,

Prisca Lessa