CONSOLO A UMA GESTANTE: Deus está trabalhando em você e apesar de você.

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O choro veio de repente. Enquanto conversávamos sobre nossos planos futuros, meus olhos se encheram de lágrimas, aquelas emoções acumuladas ao longo dos meses transbordaram inesperadamente. Sem compreender muito bem o que se passava, meu marido se achegou e me abraçou, chorei ainda mais, ele perguntou a razão do meu choro e aguardou pacientemente pela minha resposta.

– Me sinto inútil – finalmente desabafei.

Só Deus sabe o quão doloroso foi, para o meu ego, confessar isso. Me sinto inútil. Desde o início da minha gestação este sentimento vinha sendo uma companhia silenciosa em meu coração e, embora eu já soubesse disso, me doeu confessá-lo, pois, ao fazer isso, eu assumi minha própria fraqueza.

Poder gerar uma criança em meu ventre, e ser o seu lar tem sido uma das maiores experiências e bênçãos que o Senhor me concedeu nesta vida, constantemente me assombro tentando compreender esse caminho divinamente misterioso (Ec 11.5). Contudo, apesar de saber o quão maravilhoso e glorioso é esse propósito, confesso que compreender a vontade de Deus para mim nesse momento particular de minha vida não foi tão simples.

Nos últimos anos eu me acostumei a um ritmo de vida no qual estou sempre fazendo muitas coisas; ser produtiva, em casa e no trabalho, servir as pessoas ao meu redor, escrever, ler, ensinar, e estar sempre disponível quando as pessoas precisam, são coisas que me trazem um enorme senso de realização e propósito. De repente, com o início da gestação me deparei com uma nova realidade, uma realidade na qual até mesmo guardar as compras do supermercado havia se tornado um desafio para mim. Eu não tinha forças para fazer quase nada, mal conseguia cozinhar e manter a casa minimamente limpa. Era frustrante ter que escolher entre uma atividade e outra; um golpe e tanto para as minhas expectativas de dona de casa.

Não bastassem as limitações físicas, também me deparei com as limitações intelectuais; foram meses de frustração por não poder ler e escrever como de costume, cada vez que me forçava a seguir o mesmo ritmo, me sentia ainda mais incapaz. A frustração por não poder ler, escrever e produzir o tanto quanto gostaria ou deveria – simplesmente porque minha mente não conseguia produzir tanto quanto antes – era constante. Parecia que eu não estava fazendo absolutamente nada, que minha vida estava parada, enquanto o restante do mundo girava em ritmo acelerado. Foi assim, que o sentimento de inutilidade foi crescendo e ganhando terreno em meu coração, e me vi chorando copiosamente nos braços do meu marido naquela noite.

Após ouvir todo o meu lamento, ele pacientemente respondeu:

– Meu bem, você está gerando uma criança no seu ventre. Como isso pode ser insignificante? Como você pode concluir que não está fazendo nada? Seu corpo está mais cansado, é óbvio, afinal, ele está trabalhando como nunca em prol de outra vida além da sua. Você está ocupada fazendo a coisa mais importante que você poderia estar fazendo nesse momento, algo que ninguém mais pode fazer por você: você está gerando uma vida! Isso não é e não te torna inútil. O mundo continuará girando sem o seu trabalho, livros continuarão sendo publicados sem sua leitura, textos continuarão sendo escritos sem sua contribuição. Embora cada uma dessas atividades seja importante, elas não são indispensáveis e você não é indispensável na realização delas. A casa pode ser limpa por outra pessoa, a comida pode ser preparada sem você, tudo em volta continuará acontecendo, não porque você não é importante, mas porque não é você quem sustenta o mundo ao seu redor. Mas, Deus confiou a você uma missão que somente você pode cumprir nesse momento, missão para a qual você é indispensável agora: ser mãe. Então, abrace essa missão com contentamento e alegria, não pensando naquilo que você está deixando de fazer, mas naquilo que você está fazendo. Essa é a sua tarefa mais importante nesse momento.

Essas palavras foram um consolo, e também um confronto ao meu coração. A partir de então, passei a refletir sobre como eu estava associando o meu senso de valor e utilidade a coisas mensuráveis. E cá estou, esse momento, enquanto aguardo a chegada do nosso primogênito, Deus tem me ensinado sobre como tendemos a medir nossa utilidade com base naquilo que podemos ver, com base em resultados mensuráveis. Poder observar e mensurar aquilo que estamos fazendo e ver os resultados disso nos traz a sensação de dever cumprido, um senso de satisfação e utilidade. Mas, e quando não conseguimos mensurar aquilo que estamos realizando? E quando não é possível ver ou medir os resultados daquilo que estamos realizando? Creio que este é um dos desafios da gestação, não há como mensurar o trabalho que está sendo realizado aqui dentro, não há como dar um check na lista de “tarefas gestacionais”.

As palavras do apóstolo Paulo ecoam em minha mente: “Portanto, meus amados irmãos, sede firmes e constantes, sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que o vosso trabalho não é vão no Senhor.” (1 Co 15.58). Saber que o nosso trabalho não é vão no Senhor é um lembrete de que mesmo que não consigamos medir ou ver o fruto do nosso trabalho, Deus o vê. O nosso trabalho não é em vão no Senhor pois, por mais simples que seja, ele está ecoando na eternidade. Essa é a realidade de todos aqueles que trabalham para o Reino.

De fato, esse versículo é consolador para todo o cristão, independentemente de sua realidade, ele oferece consolo tanto ao pastor que semanalmente se dedica à sua congregação, sem muitos frutos aparentes, quanto às mães que diariamente se dedicam à criação de seus filhos, sem muitos resultados visíveis, e, também, a nós, mães que estão gerando dia e noite; cujos corpos estão trabalhando ativamente no sustento de uma vida. Quão cansativo isso pode ser; nós não conseguimos mensurar os resultados. Ao chegar ao final do dia, não olhamos para dentro dos nossos úteros e vislumbramos tudo o que foi feito, mas podemos crer, pela fé, que a cada dia Deus está usando nossos corpos limitados para realizar o trabalho necessário para a manutenção da vida dos nossos bebês, estamos cooperando com a obra de Deus, ainda que não possamos ver, ainda que não pareça relevante. Deus está trabalhando através de nós, e apesar de nós para a sua glória.

Descanse e encontre contentamento em Deus, independentemente daquilo que você consegue fazer.

Permita-me deixar aqui também uma observação, de forma alguma, quero dizer que o fato de uma mulher estar gerando um filho em seu ventre significa que ela não possa ou deva fazer nenhuma outra coisa, ou que deva viver esta fase sem se responsabilizar por mais nada. Não, não é essa a intenção, mas, quero aplicar aqui o seguinte princípio bíblico: o que quer que você faça, faça conforme as tuas forças (Ec 9.10).

Se você é uma gestante superprodutiva em diversos níveis, glorifique a Deus e faça conforme as tuas forças, com diligência e sabedoria, lembrando-se que sua maior prioridade, neste momento, é gerar e nutrir – e mudanças fazem parte do processo. Mas, se você é uma gestante que sente sua capacidade de trabalho completamente reduzida – e isso tem trazido um peso e tristeza ao seu coração – descanse no Senhor; saiba que você está fazendo algo importante para Deus. Fuja da comparação, olhe para Cristo e você encontrará satisfação e propósito. Nos dias em que puder fazer muitas coisas mensuráveis, glorifique a Deus, e nos dias em que não puder – nos dias em que se sentir cansada e indisposta, glorifique-o também, pois Ele é digno disso.

A graça vem dele, não de você.

Saiba que não está em você gerar e sustentar essa vida, portanto, não deixe que a maternidade alimente seu ego, te fazendo sentir-se uma mulher superpoderosa ou superior às outras. A maternidade é dom da graça, e essa graça vem do Senhor, e não de você. Cada limitação é uma oportunidade.

Celebre as pequenas vitórias. Depois de meses com muitos enjoos, lembro-me do dia em que, finalmente, consegui refogar o alho e a cebola sem enjoar. Foi uma grande vitória e eu celebrei com grande alegria. A gestação nos limita em vários sentidos, mas cada limitação é uma oportunidade de conhecermos mais a respeito do Deus que é ilimitado, em quem podemos descansar sem medo e reconhecer nossas limitações. Longe do discurso de supermães, ou de que podemos dar conta de tudo, a maternidade é, sem dúvida, uma escola que nos ensina o quão limitadas somos; tenho aprendido isso, mesmo antes de ter o nosso bebê em meus braços. Não poderemos ser tudo que nossos filhos precisam, mas Deus é e sempre será tudo o que eles necessitam. Quanto antes compreendermos isso, mais cedo reconheceremos nossas limitações e colocaremos nossas cargas maternais sobre aquele que pode todas as coisas.

Eu sou apenas uma mamãe de primeira viagem tateando nesse novo e vasto universo, mas gostaria de encorajar você, mãe com seu bebê no ventre ou nos braços: não se sinta inútil por não fazer tudo o que fazia. Nós não vamos dar conta de tudo, esqueça isso! Não coloque sobre seus ombros um fardo que Cristo não colocou, entenda o seu chamado, entenda o seu propósito e viva-o com contentamento e alegria. Lembre-se que, por mais que façamos tudo, sem Cristo, nada disso será o bastante; sem Cristo, somos servos totalmente inúteis, e nosso trabalho é inútil, mas nele, a menor das tarefas, seja dar um copo de água para saciar a sede de um necessitado, ou o alimento para o seu bebê, se torna algo de valor eterno e digno de recompensa.

Deus está trabalhando através de nós, e apesar de nós – há pleno consolo em sua obra.

No Amor de Cristo,

Prisca Lessa

GASTE-SE PARA A ETERNIDADE.

devocional, Reflexões

“É para esse fim que eu me empenho, esforçando-me o mais possível, SEGUNDO o poder de Cristo que opera poderosamente em mim.” (Colossenses 1:29)

Na parte final de Colossenses 1, o apóstolo Paulo compartilhou com esses irmãos o objetivo de sua missão: fazer conhecido o mistério do evangelho aos gentios, a saber, “Cristo em vós, a esperança da glória”. Para isso, Paulo não media esforços, a fim de tornar conhecido esse mistério, cujo alvo final era apresentar todo homem perfeito em Cristo.

No entanto, ainda que essa fosse uma obra totalmente espiritual, Paulo não deixou de expressar o seu labor no cumprimento dessa missão. No verso 29, ele fez uso de expressões fortes para demonstrar isso: “para isso é que também me afadigo, esforçando-me o mais possível”. Embora a finalidade de sua missão fosse espiritual, ela não excluía sua participação ativa, afinal, Deus o chamara para trabalhar no cumprimento dessa missão e para que ela acontecesse, Paulo precisava se dedicar.

Conquanto a missão seja de Deus, nós somos participantes dela; sabemos do triunfo final da missão, contudo, isso não exclui o penoso caminho que precisamos trilhar para isso. Em nome do chamado que recebera, Paulo se afadigava, dando tudo de si, esforçando-se ao máximo, mesmo tendo plena convicção de que, no fim das contas, não era o seu esforço que garantiria o sucesso da missão, mas a eficácia do poder de Deus atuando EFICIENTEMENTE nele. Ele sabia que não estava em si mesmo o aperfeiçoamento dos santos, mas, o poder de Deus é que tornava o seu trabalho eficiente para a obra.

Veja que não há contradição entre a dedicação e o esforço constante e intencional de Paulo e seu entendimento de que a eficácia de todo o seu labor dependia do poder de Deus. Como servos de Cristo, é nosso dever nos esforçarmos o máximo possível; usando todas as nossas forças a seu serviço, não sendo preguiçosos, nem omissos, mas dedicados; tendo fé que a eficácia e a suficiência do nosso trabalho não virá por nosso empenho ou mérito, mas segundo a vontade e o propósito de Deus.

Parece um paradoxo, mas as duas perspectivas que se completam de forma perfeita. (1) Não podemos ser preguiçosos ou omissos no trabalho que Deus conferiu a nós. Ainda que estejamos a serviço de uma missão bem-sucedida, ela exige de nós esforço e dedicação. (2) Não basta orar, é preciso trabalhar com afinco. Nossa dedicação, por si, é insuficiente para o sucesso dessa missão, por isso, não basta trabalhar, precisamos confiar e depender do agir de Deus para que esta missão se cumpra.

Como disse também o apóstolo Paulo em 1 Pedro 4:10‭-‬11: “Servi uns aos outros, cada um conforme o dom que recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus. Se alguém fala, fale de acordo com os oráculos de Deus; se alguém serve, faça-o na força que Deus supre, para que, em todas as coisas, seja Deus glorificado, por meio de Jesus Cristo, a quem pertence a glória e o domínio pelos séculos dos séculos. Amém!” É nosso dever, como cristãos, fazer o melhor que podemos em nossas vocações, pois, importa que dediquemos nossas vidas à obra de Deus, afinal, fomos criados e chamados para isso.

Sabe quando você compra algo precioso para si e tem medo de gastar? Você quase não usa aquilo ou, quando o faz, é com muita dó de gastar? Por vezes, agimos exatamente assim com as nossas vidas, queremos poupá-las ao máximo, pois temos medo de gastá-las. Para isso, evitamos tudo que possa exigir de nós demasiado sacrifício, demasiado cansaço, esforço, fadiga ou estresse.

Veja bem, não é justamente essa a mensagem que a cultura prega? Se poupe o máximo que puder, guarde sua vida, se ame mais, não vale a pena empenhar esforços naquilo que não te traz conforto e alegria imediata. Se o trabalho te desgasta, saia dele (sem considerar as consequências), se o casamento te desgasta, se divorcie, se a maternidade te desgasta, não tenha filhos, ou terceirize-os, aplique essa regra a todos os seus relacionamentos (inclusive dentro da igreja), se poupe. Viva para o seu prazer.

Mas, a Bíblia, nos mostra um caminho diferente, um outro tipo de cultura, ela diz: se gaste, se dedique, se sacrifique, saia do conforto e dê tudo o que puder para a glória de Deus, porque se “gastar” nessa vida a fim de glorificar a Deus não é perda, é ganho, pois, à medida que nosso exterior se “gasta”, nosso interior se renova (2 Co 4:16-18). Aliás, não é justamente esse um dos paradoxos da vida cristã? Quanto mais “nos usamos” e nos deixamos usar por Deus, mais aumentamos em largura e estatura (Ef 4:12-13), nossas possíveis perdas se tornam em ganhos. A matemática de Deus é perfeita!

Se esse corpo e essa vida é tudo o que temos, de fato, faz sentido privá-lo de tudo que possa gastá-lo; e temos mais é que economizá-lo e poupá-lo das fadigas desta vida. Mas, se aguardamos a promessa de um corpo glorificado, sabemos que há um tesouro muito mais elevado, não precisamos ser mesquinhos enterrando nossos talentos na terra para que ninguém nos importune. Estamos trabalhando para a eternidade.

Portanto, não tenha medo dos desafios que a vida possa trazer, sei que pode ser assustador, mas não estamos sozinhos diante deles. Veja, Paulo, um homem fisicamente cansado por causa de seu trabalho, mas espiritualmente alegre, renovado e disposto. Não há contradições. O cansaço faz parte de nossa natureza física, mas a perseverança faz parte de nossa natureza espiritual. Deus está conosco.

É inevitável não aplicar essa reflexão ao meu contexto de maternidade. Sei que a maternidade é bastante desgastante e, sinceramente, confesso meus temores, tenho medo de me “gastar”. Se eu pudesse gostaria de passar por ela intacta, preservando meu sono, meu corpo e meus interesses a salvo de qualquer infortúnio, mas não será assim. Essa é a missão de Deus para mim nesse momento, e como Paulo quero poder me esforçar o máximo possível, segundo a eficácia do poder de Deus. Fazendo tudo o que eu puder, mas sabendo que a eficiência do trabalho das minhas mãos não depende do meu desempenho, mas da obra da graça de Deus; quero mãos fortes para servir e quero joelhos fortes para orar.

Quero que o Pai me ensine e me ajude a ser uma mulher forte, que me ajude em minhas fraquezas e no meu cansaço. Que eu trabalhe com dedicação e confie com oração.

E que Deus nos ajude, minhas irmãs, em nossos chamados e em nossa missão, pois todas nós estamos à serviço do Reino, cada uma em sua frente de batalha, todas para a glória do Rei. Que Deus nos abençoe.

No Amor de Cristo,

Prisca Lessa

Deus Auto suficiente #podcast

natal, Teologia, vida cristã

Olá, queridas! Tive o prazer de gravar um podcast falando sobre um dos atributos de Deus: sua autossuficiência. Foi um bate-papo muito bom! Você pode conferir lá no Spotify do @pdcpodcast, ou acessando o site que deixarei ao final da descrição. Que Deus abençoe 💜

“Hoje o atributo de Deus que estudaremos é a sua Auto-Suficiência. Esse é um atributo incomunicável de Deus, ou seja, Ele é e nós não somos! Creio que essa é uma das coisas mais difíceis para aceitarmos… que não somos auto-suficientes.
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Em seu livro “Incomparável”, a Jen Wilkin diz o seguinte: “Nós fomos criadas para necessitar tanto de Deus quanto dos outros. Nós negamos isso para o nosso próprio perigo. Não temos necessidades por causa do pecado; somos necessitadas por um propósito divino. Certamente podemos ter necessidades de forma pecaminosas e, frequentemente, confundimos a necessidade com o querer, mas não fomos criadas para sermos auto-suficientes. Tampouco fomos recriadas em Cristo para tal. A santificação é o processo de aprender a crescer em dependência, não em autonomia.”
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No episódio de hoje, a Prisca Lessa nos guia no estudo desse atributo que teimamos em querer imitar, mas no qual deveríamos aprender a descansar e nos alegrar. Então vamos aprender mais sobre nosso Deus Auto-Suficiente.
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Os episódios estão disponíveis no Spotify, no Deezer, no Apple Podcasts, no CastBox e em qualquer aplicativo agregador de podcasts . Se quiser escutar diretamente do site, clique no link do perfil e depois em “episódio dessa semana”

Link do site para ouvir ao podcast: https://projetodocoracao.com/deus-auto-suficiente/

TUDO POSSO NAQUELE QUE ME FORTALECE

devocional, Reflexões, vida cristã

TUDO POSSO NAQUELE QUE ME FORTALECE

Em Filipenses 4:11-13, o apóstolo Paulo escreveu que:

  • Aprendeu a viver contente em toda e qualquer situação;
  • Aprendeu a lidar com a honra, assim como a humilhação;
  • Aprendeu a lidar com a fartura, assim como a fome;
  • Aprendeu a lidar com a abundância assim como a escassez;
    Por fim, ele resumiu toda a experiência adquirida por meio dessas circunstâncias em uma frase: “tudo posso naquele que me fortalece” (v.13). Esta é uma realidade inegável na vida cristã: em Cristo podemos todas as coisas; podemos passar por todas as circunstâncias, as melhores e as piores, porque é o Senhor quem nos sustenta.

Mas, o apóstolo Paulo não parou por aí, ele continuou falando aos filipenses, nos versos 14 a 16:
“Todavia, fizestes bem, associando-vos na minha tribulação. E sabeis também vós, ó filipenses, que, no início do evangelho, quando parti da Macedônia, nenhuma igreja se associou comigo no tocante a dar e receber, senão unicamente vós outros; porque até para Tessalônica mandastes não somente uma vez, mas duas, o bastante para as minhas necessidades.”

O mesmo Paulo que afirmou veementemente: “tudo posso naquele que me fortalece” é quem na sequência demonstrou a importância do apoio e do serviço no Corpo de Cristo, deixando claro que tal afirmação não era de independência ou arrogância.

Veja, depender de Deus não significa desprezar o auxílio que chega até nós por meio de mãos humanas. “Tudo posso naquele que me fortalece” não está em desacordo com aceitar e receber ajuda humana. Como cristãos devemos estar humildemente prontos a perceber a providência de Deus agindo por meio de pessoas, oportunidades e recursos que Deus coloca diante de nós. Não devemos desprezar isso.

Deus em sua maravilhosa providência usa pessoas para suprir às nossas necessidades e atender às nossas orações. Nem sempre as respostas caem do céu, por vezes, vêm por meio de uma ligação, uma mensagem perguntando se você está precisando de algo. Não devemos desprezar as mãos que se estendem a nós em nome de uma suposta “dependência exclusiva de Deus”. Dizer que dependemos unicamente de Deus enquanto desprezamos a ajuda de outros pode ser pura manifestação de orgulho.

Em Cristo existe um perfeito equilíbrio entre saber que tudo vem de Deus e perceber Deus agindo por meio de pessoas e circunstâncias naturais para atender às nossas necessidades. Isso se chama discernimento, e é um fruto da sabedoria.

Também devemos aprender com essa igreja que generosamente supriu às necessidades do apóstolo Paulo em mais de uma ocasião. Como cristãos precisamos ter plena consciência de que Deus nos chama a servir. Nossos recursos devem estar à disposição do Reino de Deus e seus propósitos. Deus generosamente enviou seu Filho Unigênito ao mundo para suprir nossa maior necessidade, de redenção. Semelhantemente, devemos estender graça e generosidade ao próximo.

Nesse tempo em que há tantas pessoas passando por toda sorte de necessidades, que sejamos prontos a receber ajuda e ter nossas necessidades supridas com humildade de espírito; e que sejamos prontos a doar com um espírito generoso, assim como o nosso Pai, em Cristo Jesus.

Que Deus nos abençoe.

No amor de Cristo,

Prisca Lessa

202UM

Reflexões, vida cristã

Então, vimos o fechar de mais uma década e hoje iniciamos uma nova contagem, chegamos a 2021.

Sem nenhum tipo de supertição, confesso que gosto da data, gosto de saber que fechamos dez anos e começamos mais um ano “um”. Aliás, devo confessar também que gosto de contar os meus anos pelas décadas, é um bom exercício, se você parar para pensar, os eventos mais significativos de nossas vidas são marcados por décadas.

Os primeiros 10 anos de vida caracterizam nossa formação básica; a segunda década marca a passagem da infância para a vida adulta; a terceira década é a fase em que tomamos as principais decisões de nossas vidas, onde basicamente, definimos quem queremos ser. No final dela, geralmente, nossa senso de identidade já está formado, e assim prosseguimos, década após década.

Enfim, tudo isso é só para dizer que, independentemente de qual década de vida estejamos vivendo hoje, o Senhor que nos guiou até aqui continuará a nos guiar neste e nos próximos anos de nossas vidas. Que aprendamos a contar os nossos dias e anos para que alcancemos um coração sábio. Aliás, creio que esta seja, sem dúvidas, uma boa resolução de ano novo: um coração sábio. Que possamos buscá-lo, nEle, por Ele e para Ele.

Feliz Ano Novo, queridas irmãs, seguimos aqui, juntas, por mais Teologia nas Mulheres e mais Mulheres na Teologia. Um abraço fraterno.

Prisca Lessa.

Os chamados ordinários são necessários

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Em seu livro Simplesmente Crente, Michael Horton escreve: “É bem mais fácil me entregar a um projeto de servir os pobres do que dar mais atenção à minha esposa e meus filhos. Isso é corriqueiro. Não consigo ver o impacto da dúzia ou mais de pequenas conversas, correções, risadas e tarefas que acontecem em um dia – ou mesmo em uma semana.” Eu não poderia estar mais de acordo.

Frequentemente, ansiamos por chamados extraordinários, chamados que irão produzir um grande impacto no mundo; chamados cujos resultados serão visíveis, mensuráveis e nos trarão um senso de propósito e realização. Mas, a realidade é que, na maioria das vezes, nossos chamados são mais ordinários do que realmente gostaríamos que fossem, nossas realizações diárias quase imperceptíveis e nossas vidas anônimas para a maior parte das pessoas ao nosso redor.

Quantas vezes o anseio por algo maior produziu descontentamento, murmuração e ingratidão em nossos corações? Ansiamos pela grandeza, e nos deparamos com uma pia cheia de louças para lavar, ansiamos por um trabalho empolgante e desafiador, enquanto a realidade nos espreme dentro de um vagão de trem para mais um dia de trabalho fatídico. A vida ordinária com seus chamados opacos parece desprezível à luz de nossas aspirações por chamados extraordinários. Mas, embora não haja holofotes para a mãe que acorda vez após vez para amamentar o seu bebê, nem para o jovem que cochila no ônibus após uma aula exaustiva, a realidade é que são os chamados ordinários que dão ritmo à vida e fazem dela o que ela realmente é; no fim das contas, os chamados ordinários não são desprezíveis, mas necessários.

Lamentavelmente, nossa cultura viciada em grandeza, transformou o ordinário em algo indesejável, algo indigno de ser mencionado. Contudo, houve um homem na História, que mesmo tendo o mais extraordinário de todos os chamados, viveu de modo ordinário neste mundo, entre a poeira das ruas de Nazaré, suor e a serragem numa carpintaria. Ele não julgou que ser grande era algo ao qual deveria se apegar, ao invés disso, se esvaziou e viveu da forma mais ordinária possível, até a morte e morte de cruz.

Na vida de Cristo enxergamos um chamado (extra)ordinário, Ele sabia para que veio, sabia que sua vida seria marcada por momentos de tirar o fôlego e que entre esses grandes momentos ele viveria o ordinário: faria os deveres de casa, obedeceria aos seus pais, criaria e consertaria peças na carpintaria, ensinaria repetidamente um grupo de homens tardios em aprender e dependeria da provisão de Deus da forma mais ordinária possível – não pense que Jesus multiplicava pães e peixes a todo tempo (Jo 4.27-31, Mt 16.5-7).

Jesus sabia de seu chamado extraordinário, mas ele viveu de modo ordinário neste mundo. Ele foi um homem comum, você o veria no metrô, você o veria comprando água na fila do ônibus – enquanto também estaria oferecendo água viva para a vendedora ambulante, você o veria tomando vinho e se alegrando no casamento de um primo ou esperando o almoço ficar pronto na casa de amigos queridos, e em cada uma dessas circunstâncias ele estaria sendo plenamente Deus, plenamente extraordinário.

Se até mesmo o mais extraordinário de todos os chamados neste mundo foi construído sobre dias ordinários, dias de cansaço e rotina, por que insistimos em desvalorizar o ordinário?

Vivendo à luz de um chamado extraordinário

Nos capítulos 5 e 6 da Epístola aos Efésios, o apóstolo Paulo apresentou diversas orientações práticas aos cristãos da comunidade de Éfeso:

“As mulheres sejam submissas ao seu próprio marido, como ao Senhor; porque o marido é o cabeça da mulher, como também Cristo é o cabeça da igreja, sendo este mesmo o salvador do corpo. Como, porém, a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo submissas ao seu marido. Maridos, amai vossa mulher, como também Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela, Assim também os maridos devem amar a sua mulher como ao próprio corpo. Quem ama a esposa a si mesmo se ama […] Filhos, obedecei a vossos pais no Senhor, pois isto é justo. […] E vós, pais, não provoqueis vossos filhos à ira, mas criai-os na disciplina e na admoestação do Senhor. Quanto a vós outros, servos, obedecei a vosso senhor segundo a carne com temor e tremor, na sinceridade do vosso coração, como a Cristo, não servindo à vista, como para agradar a homens, mas como servos de Cristo, fazendo, de coração, a vontade de Deus; […] E vós, senhores, de igual modo procedei para com eles, deixando as ameaças, sabendo que o Senhor, tanto deles como vosso, está nos céus e que para com ele não há acepção de pessoas.” (Efésios 5.22-25, 28 – 6.1, 4-6, 9)

Em cada uma dessas orientações distintas ecoa um chamado em comum: o chamado à uma vida ordinária EM CRISTO. De fato, somente em Cristo nossos chamados ordinários podem ser vividos à luz de um propósito muito maior. O chamado à uma vida ordinária apresentado pelo apóstolo Paulo não é em nada inferior, sabemos disso porque em capítulos anteriores ele expressou o mais alto e sublime chamado que os cristãos receberam da parte de Deus: a eleição em Cristo, a adoção de filhos e dádiva de todas as bênçãos espirituais nas regiões celestes em Cristo Jesus. Que chamado pode ser mais extraordinário do que esse?

Não obstante, Paulo expressou como esse chamado extraordinário deveria ser vivido de forma ordinária pelos mais diversos grupos de pessoas presentes na comunidade de Éfeso: maridos, esposas, pais, filhos, servos e senhores. Imagino que depois de ouvirem tantas coisas gloriosas acerca da nova vida em Cristo havia uma enorme expectativa: “E agora, como devemos viver à luz desse chamado grandioso?”, “Quais coisas extraordinárias devemos fazer?”, “Como Paulo, será que devemos abandonar tudo e pregar o Evangelho ao redor do mundo?”, “Viver radicalmente à sombra da espada?”, “Abandonar nossas esposas, maridos e filhos?”, “Que chamado grandioso nos aguarda nas próximas linhas escritas pela pena de Paulo?”

Ao contrário do que se poderia esperar, Paulo não convocou os maridos a um chamado heroico, saírem de suas vidas ordinárias de trabalho e cuidado familiar para uma vida extraordinária, erradicando a pobreza ao redor do mundo; ele não chamou os filhos a viverem radicalmente à sua própria maneira desbravando o mundo, mas a obedecerem seus pais dia após dia. E quanto aos servos? O apóstolo Paulo é duramente criticado por não ter ordenado que eles se rebelassem contra o sistema da época, mas, que, ao invés disso, cumprissem suas tarefas comuns com maior empenho, como ao Senhor e não a homens. A verdade é que ao apresentar esses chamados à luz da obra de Cristo, Paulo elevou o ordinário, mostrando que aquilo que seria apenas comum e, talvez, inferior para muitos, deveria expressar uma realidade muito maior: a obra extraordinária de Cristo.

É à luz desse chamado extraordinário, e somente por meio dele, que a vida ordinária encontra sentido e propósito, é somente porque Cristo viveu ordinariamente como homem, sendo extraordinariamente Deus, que nossa vida sob o sol eclode em graça. Somente em Cristo nossas aspirações pelo extraordinário podem ser saciadas, independentemente daquilo que fazemos, do quanto ganhamos e do quão reconhecidas somos por isso; o ordinário continua sendo ordinário, mas somos impulsionados a vivê-lo para glória de Cristo.

Servindo ordinariamente para um fim extraordinário

Mas, e quanto a parte de vivermos radicalmente por Cristo? E quanto à vida do próprio apóstolo Paulo, marcada por tantos feitos marcantes pela causa de Cristo? Estou certa de que Paulo compreendia o seu chamado e sabia de sua missão, e embora quisesse que todos fossem como ele (1Co 7.7), não impôs que cada homem e mulher cristão deixasse tudo para viver como ele viveu, antes, encorajou que os cristãos servissem ordinariamente para um extraordinário, os solteiros cuidando das coisas do Senhor, os casados das coisas de casados, os presbíteros cuidando das igrejas locais, as mulheres mais velhas servindo e aconselhando as mais novas, os jovens servindo aos seus irmãos com respeito e amor, todos com o fim de glorificar a Cristo.

Queridas, apesar da impopularidade destas palavras, não existe nada mais radical nesse mundo egoísta do que amar a Deus e ao próximo, não existe nada mais radical do que servir. Você aspira por uma vida extraordinária? Então, sirva. Se você puder obedecer a Cristo servindo ao seu próximo, você expressará genuinamente o chamado extraordinário de Deus em sua vida. Sei que isso pode parecer pequeno demais, mas se você já tentou, você sabe o quão difícil é servir. Não é um chamado fraco, é um chamado forte, forte demais para nós, por isso, em cada uma de suas orientações, Paulo aponta para Cristo, o alicerce de uma vida ordinária, servimos nele, por ele e a ele. Essa visão faz com que nossos chamados mais simples tenham valor, ir ao mercado fazer compras semanais ganha propósito se com isso estamos buscando o fim extraordinário de servir a Cristo acima de tudo; as noites insones de estudos para a faculdade, seguidas de uma jornada de trabalho intensa ganham propósito se apontam para a extraordinária glória de Deus na face de Cristo.

Desejamos fazer coisas grandes e tudo o que encontramos é uma pilha de roupas de crianças para lavar e brinquedos espalhados pela sala, de novo, refeições para preparar, de novo, relatórios para entregar, de novo, disciplinas e exames para realizar, de novo, mensalidades e boletos, de novo, de novo e de novo. Isso pode ser desanimador, mas, imagine Jesus, de novo e de novo, aquele que não precisava fazer nada DE NOVO o fez até o último dia de sua vida aqui nessa terra.

Sei que nossos dias não têm sido fáceis, em muitos deles desejamos uma vida totalmente diferente da que temos, uma vida mais… extraordinária, mas que esse anseio nos impulsione para Deus e não para nossas próprias aspirações. Sei também que a vida ordinária parece muito mais empolgante nas telas do que realmente é fora delas, talvez, por isso, as redes sociais nos cativem tanto, elas são uma forma de tornar as coisas ordinárias um pouco mais interessantes; o momento ordinário do café se torna mais cativante visto a partir de uma tela, o relacionamento com os filhos mais empolgante diante de curtidas e reações, mas reações viciam e a vida requer ação mesmo quando não há interações. Por isso, precisamos encontrar em Deus a verdadeira motivação para viver o ordinário quando tudo se torna cansativo e desestimulante.

Exultantes em meio à monotonia

G.K. Chesterton escreveu que Deus exulta na monotonia, por isso Ele faz com que todos os dias o sol se levante e se ponha, Ele faz com que os movimentos da terra sejam repetitivos e as estações se repitam ano após ano; porque aquilo que é monótono aos nossos olhos é belo aos olhos de Deus, é um reflexo embaçado de sua própria constância e exultação. É, talvez seja isso que nos falte: exultação. A exultação não ocorre apenas quando saímos do ordinário, mas quando conseguimos enxergar um Deus extraordinário através das coisas ordinárias, quando cada refeição preparada nos lembra da bondade e criatividade de Deus, quando cada passeio com o cachorro nos lembra que apesar do pecado, ainda podemos nos relacionar amigavelmente com esses seres tão diferentes de nós; quando todo o cansaço da maternidade nos lembra que que o amor de Deus é ainda maior e mais sacrificial que o amor de uma mãe, e que podemos repousar em seus braços tal como nossos filhos repousam tranquilamente nos braços maternos. São momentos como esses, minhas irmãs, em que o extraordinário invade o ordinário, que podemos enxergar com mais clareza que chamados ordinários não são chamados menores, chamados ordinários são o caminho diário para o destino extraordinário que Deus tem para nós. Ocasionalmente, na caminhada Ele nos permite ter grandes vislumbres, ventos extraordinários para que ansiemos ainda mais pelo destino final, mas eles ainda não são a realidade final. Ainda não, mas, chegaremos lá, e até que esse dia venha, Deus nos chama a arrumarmos nossas camas DE NOVO com vistas no extraordinário.

No amor de Cristo,

Prisca Lessa

Esse texto originalmente publicado no blog Voltemos ao Evangelho

DIFERENÇAS ENTRE DEVOCIONAL, ESTUDO E LEITURA BÍBLICA

devocional

Chegamos ao quarto e último post da nossa série Devocional. Até aqui falamos sobre
– o que é devocional;
– por que fazer devocional;
– como fazer devocional.
Hoje falaremos um pouco sobre as diferenças entre devocional, estudo bíblico e leitura bíblica. Quanto ao devocional, creio que os princípios gerais tenham ficado bem claros, lembrando que os princípios não devem ser limitadores, mas norteadores.
Antes que de falar das diferenças entre devocional, estudo e leitura bíblica é importante entender sua finalidade, para que possamos obter melhor proveito usando cada um deles. Quando falamos de devocional, estudo bíblico e leitura bíblica, no fim das contas, estamos simplesmente falando de formas diferentes de nos relacionarmos com a Palavra, sendo que um não é, necessariamente, melhor que o outro, todos apontam para o mesmo fim: nos levar a conhecer quem Deus é, mas cada um traz uma abordagem diferente para este mesmo fim. Vale destacar que seja qual for a forma de leitura das Escrituras, a oração é sempre indispensável, pois não estamos lidando com qualquer livro, mas com a Palavra de Deus.

LEITURA DEVOCIONAL
Já que toda essa série se focou no devocional, não vou me estender neste tópico. A leitura nos ajuda a refletir diariamente sobre a Palavra de Deus, internalizando e aplicando-a em nosso dia a dia. Ela contribui para a nossa devoção diária a Deus, ela não é feita de maneira extensa, mas em pequenas porções e não demanda muitos recursos (leitura + meditação + aplicação).

LEITURA BÍBLICA
Ao me referir à leitura bíblica, tenho em mente a leitura da Bíblia em seu todo. – ou partes maiores (seções). Esse tipo de leitura é importante porque nos ajuda a ter uma perspectiva mais ampla do plano de Deus por toda a Bíblia, desde Criação, Queda, Redenção até a Consumação, também nos ajuda a ver a revelação de Cristo por toda a Escritura, isso molda a nossa mente e nos ajuda a ver a narrativa bíblica como um todo e não como partes isoladas.
Em resumo, a ideia da leitura bíblica é dar uma visão panorâmica das Escrituras. Diferentemente da leitura devocional, a leitura bíblica busca porções maiores das Escrituras, capítulos inteiros (geralmente mais de um), e também a leitura simultânea de livros que foram escritos dentro do mesmo contexto histórico. O ponto alto dessa leitura não é tanto a meditação, interpretação e aplicação das partes, mas a visão do todo; apontamos fatos e informações que se destacam e se repetem em outras partes da Bíblia e fazemos conexões, olhando não somente para o livro mas para o seu lugar na história bíblica. Por meio de uma boa leitura bíblica podemos separar materiais para estudos posteriores.
Embora a ideia da leitura bíblica seja proporcionar uma compreensão mais ampla, isso não significa que ela deva ser superficial e desatenta, pelo contrário, é preciso foco e compromisso da mente e do coração, separar um tempo para isso e ter disciplina. Um cronograma de leitura é sempre uma ferramenta útil, embora possa ser adaptado de acordo com o seu ritmo de leitura, é importante manter a constância na leitura. Lembrando que o objetivo da leitura bíblica não é cumprir um cronograma – o que muitas vezes nós leva a uma leitura irrefletida pela pressa de cumpri-lo – mas conhecer mais a Palavra de Deus.
Assim como na leitura devocional, a repetição é importante, por vezes, alguns textos que não estamos acostumadas a ler podem ser mais difíceis de compreender, em casos assim não desanime, leia mais de uma vez, ore a Deus, e se ainda assim não conseguir compreender, destaque e anote a passagem, para consultar depois, e prossiga. Por vezes, pode parecer que não há muita compreensão, mas estamos assimilando, por isso é importante perseverar na leitura, a medida que avançamos as informações captadas vão se tornando mais claras.
Concluindo, o objetivo da leitura bíblica é prover um panorama geral das Escrituras (leitura + visão geral do livro + percepção + narrativa bíblica).

ESTUDO BÍBLICO
“Cave mais fundo”, esse é o imperativo do estudo bíblico. A visão não é apenas ter um panorama do livro, ou meditar e aplicar pequenas porções das Escrituras, mas conhecer a fundo o livro, seja em seu aspecto mais geral (autoria, data, público alvo, propósito, contexto histórico, entre outros) e particular, buscando o significado e o sentido das palavras por meio de um método de estudo (existem vários, no IGTV ensinei o Estudo Indutivo da Bíblia). Ao estudarmos a Bíblia aprofundamos o nosso conhecimento da Palavra, aguçamos nossa compreensão e capacidade e observar o texto e extrair dele verdades profundas.
Por que estudamos a Bíblia? Primeiramente porque ela é a Palavra de Deus, o meio especial pelo qual Deus escolheu se revelar – se Deus escolheu a tal meio, devemos nos debruçar sobre ele. Em segundo, estudamos a Bíblia porque embora ela tenha sido dada ao povo de Deus de todas as épocas, ela foi originalmente escrita e destinada a pessoas específicas. Sendo assim, há alguns abismos para nós que estamos aqui num país de língua portuguesa, no ano de 2020, numa cultura pós-moderna, graças a Deus, por meio da ação direta do Espírito Santo em nós e através do trabalho de muitos estudiosos das Escrituras, hoje, muitos desses abismos podem ser ultrapassados por meio de recursos que temos à nossa disposição: dicionários, comentários, léxicos, princípios da hermenêutica bíblica, livros com temas específicos e etc , cada uma dessas ferramentas nos auxilia a obter melhor compreensão do texto.
O Estudo Bíblico geralmente é feito com base em um livro que deverá ser lido em seu todo, observando, anotando, fazendo questões ao texto e buscando o real significado do texto para o público original antes de aplicá-lo a nós. Também é possível fazer um estudo bíblico por temas, por exemplo, um estudo sobre a doutrina de justificação, ou um estudo sobre a relação entre fé e obras, ou sobre como a Bíblia trata o tema ansiedade; para cada um desses casos, será necessário separar e estudar passagens que abordem esses temas específicos e estudar cada uma delas a fundo.

Há muitas maneiras de estudar a Bíblia, encontre a forma mais proveitosa para você. Você não precisa ser uma expert, nem precisa fazer exatamente como essa ou aquela pessoa, mas deve entender o que está fazendo e o por quê (leitura + contextualização + observação + interpretação + aplicação).

Bem, como podem perceber, o estudo bíblico não é algo que se faz em 15 minutos, demanda mais tempo e trabalho do que uma leitura devocional ou uma leitura bíblica. Como no caso do devocional, em que precisamos compreender o princípio antes de irmos à prática, assim também ocorre no estudo bíblico, como eu disse, existem diversas maneiras de estudar a Bíblia, mas uma das características principais do estudo é que ele requer um método, mera leitura não é estudo, ler vários capítulos por si só não é estudo, o simples fato de ler usando um comentário bíblico também não é estudo, e apenas pesquisar as palavras no original também não é um estudo, mas todas essas partes compõem um estudo, por isso, é preciso ter pelo menos um princípio norteador para que haja um bom aproveitamento.

E qual é a diferença entre devocional, estudo e leitura bíblica? Como já vimos o devocional não se resume à leitura bíblica, trata-se do exercício de várias disciplinas espirituais (falamos sobre isso no segundo post da série), a leitura devocional tem como objetivo internalizar as verdades espirituais em nosso coração diariamente; a leitura bíblica busca nos dar um panorama de toda a Bíblia nos auxiliando a perceber sua unidade de pensamento e a grande história por trás de cada evento; o estudo da Palavra visa trazer aprofundamento nas Escrituras, transpondo alguns abismos e nos aproximando ainda mais do texto a fim de extrairmos as verdades profundas ali contidas e aplicá-las às nossas vidas. Cada uma dessas formas quando bem utilizadas, nos propiciam um relacionamento genuíno com a Palavra, nenhuma delas é possível sem o auxílio do Espírito Santo e o exercício da oração, todas requerem tempo e disposição do coração.

Concluindo, recentemente recebi a seguinte pergunta: Posso fazer o estudo bíblico em meu momento devocional? Nada impede que você use o momento devocional para fazer um estudo aprofundado da Palavra, a questão a ser avaliada é se você possui tempo hábil para isso em seu momento devocional – que geralmente é mais curto que um estudo bíblico. Porém, é importante que nesse processo você não negligencie a oração e outras disciplinas. Mero estudo da Palavra pode nos tornar espiritualmente áridos, cheios de conhecimento profundo, mas vazios em nossa devoção. Sim, o estudo da Palavra nos ajuda a aprofundar o conhecimento da Palavra, mas não mero conhecimento intelectual, mas conhecimento que produza transformação, um conhecimento que glorifique a Deus.
Uma vida de disciplina devocional não nos torna aceitáveis perante Deus, não nos torna melhores que os outros, nas, certamente, nos torna melhores que nós mesmos, nos moldando e confrontando diariamente. Não é algo para pessoas super espirituais, é algo para todo o cristão, todo aquele deseja achegar-se a Deus. De todo coração, espero que essa pequena série tenha te encorajado nessa busca. Amanhã concluirei a série com um vídeo muito especial com a querida Vanessa Belmonte que tem trazido ensinamentos muito preciosos sobre o tema. Não percam!

COMO FAZER DEVOCIONAL?

devocional

Até aqui vimos o que é devocional e por que é importante fazê-lo. Hoje daremos um passo em direção à prática: como fazer devocional. Creio que a maior dificuldade em relação a como fazer devocional se dá porque há dúvidas sobre os elementos que o compõem: como deve ser feita a leitura devocional, o tempo dedicado a ele, os recursos, entre outros aspectos dos quais trataremos a seguir.

Como compartilhei no primeiro post desta série, devocional é algo que se aprende com a prática. Eu aprendi em casa com meus pais e no seminário, pois essa era uma disciplina obrigatória. Todos os dias 07h00, com ou sem sono, nos dirigíamos à capela para esse momento de leitura, oração, compartilhamento e intercessão, depois íamos para o café e as demais atividades do dia. Isso me ajudou a fortalecer o hábito, me ajudou a criar mais disciplina e a orar mais — mas, não vou mentir, havia dias em que eu simplesmente dormia no momento da oração 🙈.

Como eu disse, o devocional é um pequeno culto particular a Deus, o que significa que, sim, ele possui alguma liturgia, existem elementos que o compõem e que não devem ser dispensados. Para facilitar a compreensão dividi da seguinte forma: preparação, oração, leitura, meditação, aplicação e agradecimento, veremos cada um deles, mas, antes, o que é necessário para o momento devocional? Pouca coisa, uma Bíblia, um caderno, uma caneta e um tempo do seu dia.

PREPARAÇÃO
Coloquei a preparação apenas para explicar um princípio. A preparação está relacionada à mente e ao coração, quando vamos prestar um culto a Deus, seja ele individual ou coletivo, precisamos nos livrar das distrações e nos concentrar naquilo que faremos. Então, concentre-se, evite pensamentos que te distraiam, evite estar dispersa ou preocupada com outras coisas — é muito comum nesse momento se lembrar de coisas que precisam ser feitas ou até mesmo se deparar com memórias que não te edificam, por isso mantenha o foco, leve seus pensamentos a Deus e esteja não somente com o corpo, mas com a mente disponível.

É importante também definir o livro da Bíblia que será lido, ao invés de ler trechos de diferentes livros aleatoriamente, procure ler um único livro, do início ao fim diariamente em pequenas porções. Não se preocupe em ler muito, ler em pequenas porções diárias é extremamente proveitoso.
ORAÇÃO
O momento de oração é muito importante. A oração não deve ser algo secundário na vida do cristão, ela é essencial; por meio dela falamos com Deus, rendemos graças, confessamos nossos pecados, apresentamos as nossas necessidades e intercedemos uns pelos outros. A oração produz humildade, intimidade, fé e confiança no Senhor. Nós podemos orar em qualquer lugar e em qualquer momento, esse é um bom hábito a ser cultivado, porém, não devemos deixar de de lado a disciplina da oração em quietude e solitude.
De forma prática, falarei um pouco de como faço esse período de oração em .unhas devocionais, nem sempre faço dessa forma, mas, de modo geral, sigo esse caminho.
— Ação de graças
Inicio orando com ações de graças: agradeço a Deus por mais um dia, pela vida, pelas bênçãos concedidas, por quem Ele é — posso mencionar os seus atributos e louvá-lo, seja em palavras ou canções.
— Confissão
Então, prossigo com a confissão de pecados, esse é um bom momento para avaliar o coração e a conduta, como orou o salmista: “Quem há que possa discernir as suas próprias faltas? Absolve-me das que me são ocultas. Também da soberba guarda o teu servo; que ela não me domine. Então serei irrepreensível e ficarei livre de grande transgressão.”, peço perdão pelos pecados que cometi conscientemente e inconscientemente, e que o Espírito me ajude a vencer os pecados. “Cria em mim um coração puro, ó Deus, e renova dentro de mim um espírito estável.” (Sl 51:10)
— Petição
Apresento pedidos de oração, virtudes que anseio adquirir, áreas que desejo desenvolver, sonhos, projetos, necessidades imediatas ou não.

Pedi, e dar-se-vos-á; buscai e achareis; batei, e abrir-se-vos-á. Pois todo o que pede recebe; o que busca encontra; e, a quem bate, abrir-se-lhe-á. Ou qual dentre vós é o homem que, se porventura o filho lhe pedir pão, lhe dará pedra? Ou, se lhe pedir um peixe, lhe dará uma cobra? Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará boas coisas aos que lhe pedirem?” (Mt 7:7-11). O Senhor Jesus encorajou seus discípulos a pedirem. A petição é um exercício que fortalece nossa musculatura espiritual, é um ato de fé na Palavra de Deus, aumenta a nossa esperança, nos dá a oportunidade de experimentarmos a provisão de Deus por meio das nossas orações, nos leva a enxergar mais a Deus como Pai e provedor. Nos torna menos independentes de nós mesmos e mais dependentes de Deus, também fortalece a fé dos nossos irmãos, pois produz testemunho. Devemos pedir com fé na Palavra de Deus e com as motivações corretas (Tg 4:2-3).
— Intercessão
Por fim, intercedo. É muito fácil esquecer a intercessão, orar pelas minhas necessidades é muito mais fácil, mas a intercessão é uma manifestação de amor ao próximo, é amar ao próximo como a mim mesmo, pois quando deixo de orar em meu favor e oro em favor dele, estou amando-o como a mim mesmo.
“Confessai as vossas culpas uns aos outros, e orai uns pelos outros, para que sareis. A oração feita por um justo pode muito em seus efeitos.” (Tg 4:16)
A intercessão nos concede a oportunidade de carregar os fardos uns dos outros chorar com os que choram e nos alegrar com aqueles que se alegram. Ela também gera comunhão e intimidade, quando oramos por alguém nos sentimos mais próximos, nos sentimos parte da vida dessa pessoa. Há momentos em que não sabemos exatamente pelo que orar, por isso, é bom manter um caderno com pedidos de oração e ter em mente que sempre podemos orar como Paulo em Efésios 1:15-23, pedindo em favor do crescimento espiritual de nossos irmãos (nunca é demais).

É importante dizer que esse processo da oração não é algo estático, não existe uma ordem estrita, e nem todos dias faço assim, mas esse é um caminho que me ajuda muito. Após a oração, chegamos ao momento da leitura da Palavra — há quem inverta essa ordem, eu, particularmente, gosto de iniciar com a oração e depois partir para a leitura.

LEITURA DA PALAVRA
Ore pela leitura, pedindo a Deus que te conceda entendimento da Palavra. 
“Abre os meus olhos para que eu veja as maravilhas da tua lei.” (Sl 119:18)

O objetivo da leitura devocional não é ler muito, mas extrair lições espirituais e meditar acerca delas buscando aplicá-las no dia a dia. Por isso, é importante não ter pressa nem se preocupar com metas de leitura, esse não é o objetivo. Às vezes um único versículo pode nos prender por dias, à medida que vamos discernindo as coisas presentes ali. Não tenha pressa, tudo bem passar meses lendo o mesmo livro da Bíblia, é uma forma de internalizar as verdades ali contidas.

Leia o texto quantas vezes forem necessárias para melhorar a compreensão (sempre pedindo ao Autor da Palavra que ilumine sua mente e torne seu coração sensível à verdade). “Dá-me entendimento, para que eu guarde a tua lei e a ela obedeça de todo o coração.” (Sl 119:34)

Busque o significado geral do texto e o sentido das palavras no texto e vá anotando suas percepções no caderno, quanto mais você ler, mais poderá compreender, por isso, repetição e atenção são importantes.

As anotações podem ser feitas em um caderno simples, no caderno coloco a data, a passagem bíblica e minha reflexão pessoal. Se parecer complicado no início, não se preocupe é um exercício, com o tempo vai se tornando mais simples.

MEDITAÇÃO
Após ler e perceber o que o texto está dizendo é tempo de meditar. A meditação cristã não é um transe, trata-se de uma reflexão acerca das verdades espirituais; é avaliar o coração à luz das verdades apreendidas, deixando que tais verdades se internalizem em nós (guardar no coração).

Se o texto fala acerca do amor de Deus, tenho a oportunidade de refletir sobre como Deus me ama, sobre seu sacrifício, sobre como a graça se manifesta todos os dias.
É importante que não fiquemos somente na meditação, o principal objetivo do momento devocional é nos auxiliar em nosso viver diário, é sairmos dali para as batalhas da vida alimentadas e munidas com a Palavra, mas uma armadura só faz efeito quando colocada sobre o corpo, não é mesmo? Por isso, é indispensável a aplicação. Para fins didáticos, separei a meditação da aplicação para ficar mais clara a distinção entre elas, mas elas caminham lado a lado.

APLICAÇÃO
“Porquanto, se alguém é ouvinte da Palavra e não praticante, é semelhante a um homem que contempla o próprio rosto no espelho; porque se contempla a si mesmo e vai-se, e logo se esquece de como era.” (Tg 1:23-24)
Após meditar nas verdades espirituais apreendidas do texto, agora é o momento de aplicá-las. A aplicação nos ajuda a não deixarmos as verdades para trás no momento em que fechamos nossas Bíblias, mas a carregá-las em nosso coração ao longo do dia deixando que elas nos preencham.
1. Como a leitura e a meditação sobre o amor de Deus se aplicam à minha vida?
Posso analisar como eu constantemente me esqueço desse amor, me deixo amedrontar pelas circunstâncias ou deixo de responder fielmente ao amor de Deus e confessar isso diante Dele.
1. Como saber que Deus me ama me ajuda a ser mais paciente com meus familiares, colegas de trabalho?
2. Como saber que Deus me ama me ajuda a resistir a esse pecado com o qual estou lutando?
3. Como o amor de Deus se manifesta a mim nas pequenas coisas do dia a dia?
4. Eu tenho percebido e sido grata por essas manifestações de amor?
São algumas perguntas que nos ajudam a fazer a aplicação. Isso nada mais é do que aplicar o Evangelho em nossa jornada diária.

AGRADECIMENTO

Este é o encerramento do momento devocional, agradecemos a Deus pela Palavra e rogamos para que nos ajude a guardar e aplicá-la. Concluindo, essa divisão é apenas para trazer mais clareza e didática. Como eu disse, os princípios são importantes e precisam ser conhecidos, mas a aplicação deles pode ser ajustada. Com base nesses pontos fica fácil ter uma ideia mais clara de como fazer devocional; a forma pode mudar, mas os princípios básicos são esses. À primeira vista pode parecer algo muito sistemático, mas não é. Também pode parecer que o devocional exige muito tempo, mas na prática isso se torna muito natural e espontâneo. Mas, falando em tempo, não há como estabelecer um padrão, falando por mim, o meu tempo ideal é quando tenho pelo menos uma hora para isso. Claro que nem sempre isso é possível, e nesses dias eu me adapto, reajusto e está tudo bem. Desde que haja pelo menos uma rotina diária, o tempo é ajustável. A ideia não é criar um protocolo com um horário criterioso, é o nosso tempo com Deus, deve ser prazeroso e não mero formalismo, no é pra bater cartão. Escolha um período no qual você tenha um tempo maior disponível para não ter que fazer apressadamente. Se organize e ajuste.E não desanime, nem todos os dias serão ótimos, haverá dias de desânimo, cansaço, apatia, dias em que sentirá que não tem absolutamente nada para dar. Há dias em que ao ler a Bíblia, as palavras não farão muito sentido, mas não desanime, persista, use os recursos disponíveis, consulte notas e Bíblias comentadas, converse com amigos e compartilhe aquilo que Deus tem te ensinado. Por aqui, sempre que possível eu e meu marido compartilhamos um com outro nossas reflexões devocionais, outra forma que encontro de compartilhar isso é escrevendo textos aqui e no blog, aliás boa parte dos textos nascem justamente dos meus momentos devocionais. Deus fala conosco e é maravilhoso poder dividir isso

POR QUE FAZER DEVOCIONAL?

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“Deus não se curvou à nossa pressa nervosa, nem adotou os métodos de nossa era imediatista. O homem que deseja conhecer a Deus precisa dedicar-lhe tempo.” (A. W. Tozer)

A famosa frase de A. W. Tozer é verdadeira “o homem que quiser conhecer a Deus precisa dedicar-lhe tempo”. Como é cada vez mais difícil em nossos dias dedicar tempo a algo que vá além do imediatismo e dos prazeres momentâneos, nos tornamos reféns das coisas que trazem satisfação imediata à nossa carne. O devocional é um exercício de mortificação diária, mortificação das nossas urgências, da nossa pressa, mortificação do nosso ego. O devocional é o momento que paramos de fazer tantas coisas e nos sentamos aos pés do Senhor, é quando subjugamos a nossa mente e a nossa carne e dizemos a nós mesmas que por mais que haja inúmeras coisas a serem feitas e deveres a serem cumpridos a melhor parte é e sempre será estar aos pés do Senhor, o lugar onde a nossa alma encontra descanso. Como Martas do nosso tempo andamos ocupadas com tantas coisas, nossas demandas são tantas que não nos resta tempo, nem disposição para sentar e ouvir, estamos sobrecarregadas e é justamente por isso que precisamos ir diariamente ao Senhor para que o nosso fardo seja aliviado.

Em Efésios 5:29 o apóstolo Paulo destaca um fato importante: “ninguém jamais odiou o próprio corpo, antes o alimenta e dele cuida”. Cuidamos do nosso corpo porque o amamos, esse amor nos leva o providenciar o que julgamos ser o melhor para ele, investimos em roupas que não somente o cobrem como o valorizam, em alimentos saborosos e nutritivos (ao menos deveríamos), investimos em cremes para cuidar da nossa pele e cabelos, em perfumes, cosméticos e afins, porque essas coisas trazem algum bem para o nosso corpo. A grande questão é, se estamos diariamente buscando o bem de nossos corpos, porque não buscamos com tamanho empenho o maior bem para as nossas almas? Veja, não quero fazer uma dicotomia entre corpo e espírito, como cristãos cuidamos do nosso corpo para a glória de Deus, mas o fato que quero destacar é o seguinte: 

Muitas e muitas vezes, gastamos tempo em nossos rituais de cuidados diários com a pele (por exemplo), fazemos isso religiosamente, ainda que estejamos com muito sono ou cansadas, fazemos isso porque sabemos que esse é um hábito benéfico para a nossa pele. Gastamos tempo com esses cuidados porque queremos uma pele mais saudável, porque estamos investindo em cuidados agora para que lá na frente tenhamos uma pele mais firme e bonita; porque sabemos que diariamente ela acumula impurezas que precisam ser removidas, porque queremos remover as células mortas que não lhe fazem bem. São diversas as causas, mas, a grande questão é: se nos importamos tanto com a nossa pele que daqui há alguns anos estará enrugada e será pó, não deveríamos nos importar muito mais com os cuidados para com a nossa alma que é eterna? Ela não requer cremes nem utensílios caros, requer apenas tempo e disposição, talvez, o tanto que investimos diante do espelho. 
Fazer devocional é importante porque é quando nos colocamos diariamente diante do espelho, o espelho da Palavra, para recebermos os cuidados Divinos para as nossas almas. A boa notícia é que, ao contrário de nossas peles, a alma do cristão se torna cada dia mais bela e vistosa,.a medida que recebe o tônico da Palavra de Deus, o bálsamo da oração, o esfoliante da confissão e o perfume da adoração. Dito isso, quero listar algumas razões práticas pelas quais devemos fazer devocional. 

PARA QUE TENHAMOS COMUNHÃO E INTIMIDADE COM DEUS 
Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei e cearei com ele, e ele comigo. (Ap 3:20). O momento devocional é um momento de comunhão e intimidade com o Senhor. Em Apocalipse Jesus diz que está à porta 
, o ato de entrar e cear denota intimidade, o Senhor anela por comunhão e intimidade com aqueles que são seus, e a promessa é de que se abrirmos, o Senhor entrará e ceará conosco. Será que ansiamos por essa comunhão e intimidade diária com o Senhor?

PARA QUE CONHEÇAMOS A DEUS
“(…) que vocês conheçam a esperança para a qual ele os chamou, as riquezas da gloriosa herança dele nos santos e a incomparável grandeza do seu poder para conosco, os que cremos, conforme a atuação da sua poderosa força.” (Ef 1:18‭-‬19). O momento devocional é uma oportunidade diária para conhecermos mais a Deus por meio de sua Palavra, nossas almas anelam por isso, conhecer a Deus é o anseio de toda a as que pertence a Cristo, não podemos negar-lhe esse bem vital.
PARA QUE A PALAVRA HABITE EM NÓS
“Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria, louvando a Deus, com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão, em vosso coração. E tudo o que fizerdes, seja em palavra, seja em ação, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai.” (Cl 3:16-17). Quanto mais tempo dedicamos à comunhão com o Senhor, a leitura e meditação na Palavra mais a Palavra se torna parte de nós, enchendo o nosso coração daquilo que é digno e agradável ao Senhor.
PARA QUE TENHAMOS PRAZER NA PALAVRA DE DEUS
“Tenho prazer nos teus decretos; não me esqueço da tua palavra.” (Sl 119:16). Não há como ter prazer na Palavra se não meditamos nela, é impossível amar aquilo que não conhecemos. O momento devocional propicia leitura diária da Palavra, talvez o início não seja prazeroso, mas a medida que tornamos isso um hábito e um compromisso diário percebemos quão graciosa é a dádiva de meditar na Palavra de Deus todos os dias.
PARA FUGIRMOS DO PECADO E DA TENTAÇÃO
Guardei no coração a tua palavra para não pecar contra ti. (Sl 119:11). Alguém já disse que o tempo investido na presença de Deus forma em nós um disco rígido (HD) o qual podemos acessar em qualquer tempo, nos momentos de lutas, provações, desânimo e também nos momentos de tentação. Mas se não alimentamos o nosso HD, não haverá informações armazenadas, diante do pecado e da tentação, não teremos recursos suficientes para combater os enganos de Satanás. Se tem caído continuamente no mesmo pecado, experimente uma vida de disciplina devocional, estou certa de que os frutos virão.

PARA CONFESSARMOS NOSSOS PECADOS
“Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para perdoar os nossos pecados e nos purificar de toda injustiça.” (1 Jô 1:9). O momento devocional nos proporciona diariamente a oportunidade de avaliarmos nosso coração e confessar a Deus nossas culpas e pecados. A confissão é parte importante da vida cristã, uma vez que  nenhuma condenação há para os que estão em Cristo podemos e devemos nos achegar a Deus com confiança confessando os nossos pecados e pedindo forças para resistirmos às tentações.
PARA INTERCEDERMOS
“Orai uns pelos outros, para serdes curados. Muito pode, por sua eficácia, a súplica do justo (Tg 5.16). A intercessão é uma disciplina difícil de ser praticada, nossos olhos estão sempre tão voltados para nós mesmos, mas no momento devocional temos a oportunidade de tirar os olhos de nossas necessidades por um momento e colocar as necessidades dos outros em primeiro lugar intercedendo em favor delas.
PARA RENDERMOS GRAÇAS A DEUS
“Entrai pelas suas portas com ação de graças, e em seus átrios com louvor; dai-lhe graças e bendizei o seu nome. Porque o Senhor é bom; a sua benignidade dura para sempre, e a sua fidelidade de geração em geração. ” (Sl 100:4-5). O momento devocional também nos proporciona uma oportunidade diária de gratidão a Deus, pedimos tanto, mas raras vezes agradecemos a Deus pelo que tem feito em nós e por nós, mas como é bom render graças ao Senhor, enche o nosso coração, tiramos os olhos das dificuldades, contemplamos a sua majestade e a nossa alma se enche!

O QUE É DEVOCIONAL?

devocional

Antes de caminharmos para a parte prática de como fazer devocional precisamos entender o que é devocional e no que ele consiste. De forma bem simples, o devocional é um exercício espiritual particular e diário onde aplicamos disciplinas espirituais como a solitude, a oração, a adoração, a confissão, a leitura da Palavra e a meditação. Gosto de encará-lo como nosso pequeno culto particular a Deus. A partir dessa breve definição quero destacar quatro aspectos importantes do devocional:

UM EXERCÍCIO

“Exercita-te a ti mesmo na piedade. Pois o exercício corporal para pouco aproveita, mas a piedade para tudo é proveitosa, visto que tem a promessa da vida presente e da que há de vir.” (1 Tm 4:7-8)

Paulo exorta Timóteo a exercitar-se na piedade. É bem interessante o paralelo que Paulo faz entre o exercício espiritual e o exercício físico, o exercício físico é algo louvável e desejável, e bem sabemos que ele traz benefícios imensos ao corpo, mas, Paulo destaca que para o cristão o exercício espiritual deve ser ainda mais desejável. Não que devamos ser negligentes com o corpo, mas devemos encarar o nosso desenvolvimento espiritual como algo necessário, proveitoso e intencional. Assim como o corpo precisa de exercícios para se fortalecer, assim também o espírito. O devocional, como um momento no qual exercitamos algumas disciplinas espirituais é benéfico para a nossa saúde espiritual e promove fortalecimento de nossos músculos espiritual e seus benefícios se tornam visíveis a curto, médio e longo prazo. Portanto devemos encarar essa prática como um exercício que nos auxiliará no desenvolvimento das tão negligenciadas virtudes cristãs.  

UMA DISCIPLINA

Nossas vidas estão cada dia mais aceleradas, há tarefas a serem feitas, demandas a serem atendidas e em meio a tudo isso, lidamos com distrações o tempo todo. Se não houver um momento específico para exercitarmos disciplinas espirituais como a oração, a leitura da Palavra e a meditação, corremos o risco de nos tornarmos negligentes e acomodados. Assim, o devocional é o tempo diário para que possamos exercer nossas disciplinas espirituais com foco.

(Obviamente, não oramos só nesse momento, nem meditamos na Palavra só nesse momento, contudo, é nesse momento que paramos para nos alimentar e abastecer nossas forças espirituais diariamente. É nesse momento que paramos para ouvir o Senhor intencionalmente, meditar na sua Palavra, avaliar nossos corações e confessar os nossos pecados. Muitas vezes, o barulho do dia a dia não nos permite atender à essas necessidades mais profundas. 


ALGO DIÁRIO
Há pessoas que amam rotinas, outras odeiam, mas, quer gostemos, ou não, nossas vidas são feitas de pequenas rotinas diárias; acordar, arrumar a cama, escovar os dentes, tomar banho, cozinhar, alimentar-se; diariamente repetimos os mesmos rituais, quase inconscientemente. 
Algumas das principais rotinas do nosso dia estão diretamente relacionadas ao cuidado com o nosso corpo: escovamos os dentes, penteamos os cabelos, tomamos banho, comemos, porque nosso corpo e nosso bem estar físico são importantes, por mais rotineiro que seja e por mais que venhamos a ter preguiça repetimos essas coisas diariamente porque são necessárias — e nos fazem bem. 
Mas, quando falamos de devocional, geralmente, não o encaramos como parte de uma rotina diária. Em muitos casos, fazemos devocional quando dá, quando queremos e não como parte de nossos afazeres diários. Mas, imagine se fosse assim com as demais coisas, se só cumpríssemos nossas pequenas rotinas diárias quando desse ou quando tivéssemos vontade, obviamente, elas não seriam rotinas e não seriam diárias pois dependeriam da nossa vontade e disposição, além disso, a curto e médio prazo os efeitos dessa negligência — sujeira, mau cheiro, tarefas acumuladas — logo seriam notáveis. O mesmo ocorre quando negligenciamos nossos momentos devocionais, isso nos afeta intimamente, acumulamos coisas dentro de nós, temos cada vez menos tempo e vontade de estar a sós com o Senhor, temos cada vez menos palavras para orar, paciência para meditar, concentração para ler. Nós tornamos dispersas e ansiosas.

Na caixinha de perguntas sobre devocional que fiz, muitas das dificuldades apresentadas por vocês falta de atenção, dispersão. Muito disso ocorre por causa do hábito do uso dos celulares, no celular não conseguimos manter o foco, nossos olhos correm ávidos de um lugar para o outro atrás de novidades. Mas, quando vamos à Bíblia, não temos atualizações a cada segundo, não há barulho, e não estamos mais acostumados a lidar com isso. Por isso é necessário esforço extra, minhas irmãs, para que possamos levar nosso pensamento a Cristo, fugindo de todas as distrações. 
“Mas, e se eu não puder fazer devocional diariamente?” — alguém pode perguntar. Minhas irmãs, honestamente, eu creio que com planejamento e disciplina, sim, é possível fazer isso diariamente. Obviamente que há dias que dispomos de mais tempo e outros de menos tempo, mas, podemos ajustar nossas rotinas de forma que tenhamos pelo menos um tempinho para ao menos, nos “alongarmos espiritualmente”. Estabeleça uma rotina que funcione para você, o início é sempre mais difícil, mas, a medida que o hábito se forma a coisa se torna mais fácil. Não deixe de fazer porque não dispõe do tempo ideal, faça segundo as suas forças e com o que tiver à mãos.  
“E se eu não for constante? E se falhar?” bem, faz parte, não é mesmo? Afinal, somos humanos, Deus sabe que somos pó, há dias que não conseguimos, a rotina desanda, o tempo escapa pelos dedos, o cansaço bate, a doença chega ou, simplesmente não sentimos ânimo para buscar ao Senhor, nesses dias Deus não será menos amável, misericordioso ou favorável a nós. Não se trata de performance para obter mais amor e aprovação, precisamos encarar nossas falhas em buscar a Deus tais como o que são, parte da nossa fraca humanidade, nos arrepender e seguir em frente sustentadas, sempre, pela graça de Deus. Lembre-se sempre, não se trata de uma busca por aprovação divina, trata-se de uma resposta do nosso coração à graça e a bondade de Deus. Desandou? Retorne, Deus não é um gerente de produção, Ele é nosso Pai.

ALGO PARTICULAR
O devocional é essencialmente uma disciplina particular, requer recolhimento, solitude e quietude. Essa condição diz respeito também ao celular, o excesso de barulho, informações, notificações, a “presença” constante de pessoas nos distrai, por isso recolher-se para o devocional é importante, nos ajuda na concentração e também na contrição, nos concede liberdade necessário para falar, adorar audivelmente, confessar nossos pecados, sussurrar ou chorar. Em muitas narrativas dos Evangelhos vemos o Senhor Jesus se retirando do meio da multidão e dos seus discípulos para estar a sós com o Pai. Isso é desejável, contudo, essa nem sempre é a realidade de muitas, se você é mãe, se você vive numa casa pequena com muitas pessoas, se você acorda muito cedo para trabalhar e volta muito tarde, certamente, sua realidade não lhe permite ter facilmente momentos e espaços de quietude e solitude. Por isso, é importante dizer que isso não deve te impedir de buscar ao Senhor, talvez você não possa se sentar para uma longa refeição, mas você pode se alimentar de pequenas porções, uma mensagem devocional em áudio, orações silenciosas no caminho do trabalho, no momento de descanso, enquanto faz o bebê dormir, enfim, há lugar para você, encontre-o, só não deixe que as demandas urgentes e diárias te impeçam de ir aos pés do Senhor. 
Por vezes, o cansaço é tão grande que faltam palavras, nessas horas, é preciso lembrar das palavras do salmista: antes mesmo que a palavra lhe chegue aos lábios, Senhor, tu já a conheces toda (Sl 139:4), que consolo, minhas irmãs. Encontre lugar de conforto na presença de Deus. Na vida, há dias ou momentos em que podemos sentar e banquetear com calma, outros em que só temos tempo de fazer um lanche rápido, ir comendo pão de queijo frio pelo caminho, faz parte da vida, mas, o mais importante é não deixar de alimentar e nutrir o corpo com o que temos à disposição. Na mesa do Senhor sempre há fartura de pão e o Senhor nos convida diariamente a sentarmos e cearmos com Ele (vinde a mim!). Não temos motivos para passar fome.

Em minha breve definição de devocional, destaquei-o como um momento particular, mas, vale ressaltar que existem momentos de devoção que podem e devem ser compartilhados com nossos familiares, amigos,  cônjuge ou namorado, momentos nos quais oramos e lemos a Bíblia juntos, eles são frutíferos e necessários à comunhão e não devem incluídos na nossa vida. O fato é que esses momentos devem ser agregados e não substitutos de nossa disciplina particular com Deus. 
Outro aspecto que gostaria de ressaltar é que  eu disse que o devocional um momento de culto diário e particular a Deus, digo isso não porque os demais momentos do nosso dia não sejam também um culto a Deus — toda a nossa vida é um culto ao Senhor — mas porque eu acredito que haja uma forma de liturgia quando realizamos nosso devocional, e por isso me refiro a ele como um pequeno culto. 
Concluindo, podemos dizer que o devocional é o momento diário o qual separamos para oração, leitura bíblica e meditação na Palavra, um momento de quietude e comunhão íntima com o Senhor. A seguir, caminharemos por solos mais práticos: como fazer. Não deixem de acompanhar, e se te edificou, compartilhe!