Quando a alma grita, sente fome de Deus

A busca de plenitude naquilo que é finito resulta em um infinito vazio. O engano do nosso coração é pensar que a realização dos nossos anseios é o que trará o infinito deleite que tanto buscamos. Isso frequentemente produz em nós uma grande insatisfação com a vida: com quem somos, com o lugar onde estamos, as coisas que fazemos, as pessoas com quem nos relacionamos e produz a empolgante ilusão de que uma mudança em algum desses aspectos da vida irá nos proporcionar plena satisfação. O fato é que uma mudança pode até ser empolgante a princípio, mas passado algum tempo nos deparamos novamente com aquele mesmo vazio e insatisfação e então (re)surge a necessidade de nos lançar em uma nova busca por novos relacionamentos, novos ambientes… Um círculo vicioso.

Felizes aqueles que no auge do vazio correm para Deus a tempo de descobrirem que quando a alma grita é porque está com fome de Deus! Lugares, pessoas, entretenimentos podem até disfarçar a fome por um tempo, mas não nutrem a alma daquilo que ela realmente necessita: Seu Criador. “Afasta, pois, do teu coração o desgosto e remove da tua carne a dor, porque a juventude da vida e a primavera são vaidade. Lembra-te do teu Criador nos dias da tua mocidade, antes que venham os maus dias, e cheguem os anos dos quais dirás: Não tenho neles prazer” (Eclesiastes 11:10 – 12:1)

(Imagem: Melancolie de Albert György, localizada às margens do Lago Genebra)

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Exercitando o contentamento em um mundo descontente.

contentamento

Contentamento: independente de circunstâncias externas; contente com a sua sorte ou fortuna, como os recursos que possui, ainda que limitadíssimos[1].

O descontentamento – ou a falta de contentamento – está presente no coração dos homens desde o Éden. Este fato é fundamental para compreendermos que o contentamento não tem a ver primeiramente com aspectos externos, mas com a condição do nosso coração pecaminoso. Adão e Eva estavam no melhor lugar do mundo, onde tinham tudo quanto precisavam, não havia outros seres humanos com quem pudessem comparar suas vidas. Não havia um homem mais bonito, uma mulher mais formosa, famílias mais perfeitas ou empregos melhores. Eles tinham tudo quanto precisavam bem diante dos seus olhos. No entanto, havia algo que eles não podiam ter: a glória de Deus; e foi justamente isso, essa única coisa que lhes era inalcançável que eles desejaram: “[…] no dia em que dele comerdes se vos abrirão os olhos e, como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal”.

Adão e Eva estavam no melhor lugar do mundo, mas nem mesmo o melhor lugar do mundo é o bastante quando falta contentamento.

Vivemos em um mundo descontente. Essa não é uma característica exclusiva desta geração, pois, embora o pecado encontre novas formas de nos seduzir e enganar, sua essência é a mesma. O inimigo de nossas almas continua a nos sugerir, assim como no Éden, que nós realmente não temos tudo o que precisamos. Que há algo maior e melhor “lá fora” e enquanto nós não atingirmos esse ”fruto” desejável, não estaremos vivendo plenamente nossas vidas. Ledo engano.

Quantas de nós não têm sido vítimas desses pensamentos mentirosos?!

A incredulidade é a raiz do descontentamento. Assim como Eva, nos tornamos descontentes porque acreditamos que Deus não está nos dando o melhor que poderia nos dar; Ele está nos privando de algo maior e melhor, exatamente aquilo que nos falta para sermos felizes. Essencialmente, acreditamos que Deus está nos enganando. Veja o quão perigoso é o descontentamento: a ponto de chamar a Deus de mentiroso!

É fato que em nosso coração existe algo, um anseio que supera todas as experiências humanas que experimentaremos nesta vida. Esse anseio se refere a algo maior do que nossos braços frágeis são capazes de abraçar agora: trata-se de um profundo anseio pela eternidade. Como escreveu Pascal: “Há um vazio do tamanho de Deus no coração do homem, que não pode ser preenchido por qualquer coisa criada, mas somente por Deus, o Criador, que se fez conhecido através de Jesus”. O problema é quando acreditamos que esse vazio pode ser preenchido com outras coisas que não o próprio Deus. Enquanto eu não tiver um belo corpo, namorado, marido, filhos, o carro do ano, uma casa maior, viagens, diplomas eu não serei plenamente feliz. Estamos olhando para baixo, quando, na realidade, deveríamos olhar para o alto! Todas essas coisas são boas, mas fazem parte desse mundo caído e, como tal, não podem satisfazer um anseio eterno. Tão logo as obtemos, passamos a aspirar por algo a mais – aquele sapato maravilhoso só é tão maravilhoso até que se torne seu! Indo mais a fundo, C.S. Lewis disse que: “os desejos que surgem em nós quando nos apaixonamos pela primeira vez, ou pensamos pela primeira vez em um país estrangeiro, ou nos deparamos pela primeira vez com um assunto que nos deixa animados, são desejos que nenhum casamento, viagem ou aprendizado podem realmente satisfazer. Havia algo que captamos naquele primeiro momento de desejo, mas que se esvai com a realidade. Acho que todos sabem do que estou falando. A esposa pode ser boa, os hotéis e paisagens podem ser excelentes, e a química pode ser um negócio muito interessante, mas algo nos escapou”.

Calma, Lewis não está tentando trazer uma nuvem de pessimismo sobre o nosso coração, ele está apenas nos lembrando que se confiarmos que só estaremos plenamente felizes quando obtivermos aquilo que nos falta, seremos completamente infelizes, pois ainda que conquistemos tudo quanto os nossos olhos desejarem, continuaremos descontentes. O Pregador não nos deixa dúvidas quanto a isso: “Tudo quanto desejaram os meus olhos não lhes neguei, nem privei o coração de alegria alguma […] eis que tudo era vaidade e correr atrás do vento” (Ec 2:10,11). O que precisamos saber é que ainda que tenhamos as melhores coisas e as melhores pessoas ao nosso lado, se nosso anseio não for preenchido por Deus, passaremos a vida como loucos correndo atrás do vento.

“Os livros e a música nos quais pensamos ter encontrado beleza nos trairão se confiarmos neles. A beleza não está neles, ela surge por meio deles, e o que veio por meio deles era anseio. Se forem confundidos com o que realmente desejamos, transformam-se em ídolos tolos. Ídolos que ferem o coração de seus adoradores, pois não são o que eles desejam, são tão somente o perfume de uma flor que não encontramos e o eco de uma canção que não ouvimos, notícias de um país distante que ainda não visitamos” (C.S. Lewis)

O engano do mundo é crer que a plenitude de nossos desejos e afeições pode ser suprida ou alcançada à parte de um relacionamento real e profundo com Deus. Mas, nós cristãos sabemos que Deus é a verdadeira fonte de nossas aspirações. Satanás também sabe disso. Ainda assim, ele não perde a chance de nos fazer ofertas tentadoras. Veja bem, ele sabe que não somos tão ingênuos a ponto de abraçar o pacote: “a sua felicidade se encontra aqui”, mas ele nos oferece ofertas sutis como: “por que eu não posso ter isso?” ou “por que só eu não tenho isso?” e “se eu tivesse isso, as coisas seriam mais fáceis ou melhores pra mim”. Assim como os ímpios, somos diariamente bombardeados por informações que sempre nos sugerem que precisamos de algo. Satanás sabe do nosso anseio pelo eterno e traiçoeiramente tenta nos comprar com falsas propagandas. Como cristãos todos nós lutamos contra o descontentamento. Não pense que você está sozinha nessa.

Seja por meio das redes sociais, da televisão, das conversas entre amigos; para onde quer que olhemos o mundo está sempre gritando que precisamos disto ou aquilo para sermos mais felizes. Por isso, viver contente em um mundo que te puxa para o descontentamento é um desafio diário e difícil. Nessas horas precisamos mais uma vez voltar os nossos olhos para as Escrituras e ver o que ela tem a nos ensinar.

Em uma época em que não havia Instagram, um homem cristão também lutou contra o descontentamento e, pela graça de Deus, venceu!

No texto de Filipenses 4:11-13 o apóstolo Paulo fala que aprendeu a viver contente em todas as circunstâncias. Merece atenção o fato de Paulo dizer que aprendeu a viver nessa condição de contentamento. Não foi do dia para a noite, minhas irmãs, e certamente não foi fácil. Mas, a caminhada cristã do apóstolo Paulo, cheia de lutas, privações e muitas tribulações serviu aos propósitos de Deus produzindo, entre muitas coisas, contentamento em sua vida. Isso nos leva a refletir no fato de que a caminhada cristã requer paciência. Não é sem muitas lutas que o doce fruto do Espírito é aperfeiçoado em nós. Pode ser clichê, mas aquela frase de que quando pedimos paciência a Deus Ele não nos dá paciência e sim tribulações para que aprendamos a exercer a paciência é muito real. É por meio das tribulações que o Senhor nos molda, é por meio do fogo que o ouro é purificado.

Não espere que o contentamento nasça em seu coração como uma brisa de verão, ele será forjado no fogo da privação. Foi por meio de muitas tribulações que o apóstolo Paulo aprendeu a viver contente.

Todo esse processo leva tempo! Por vezes olhamos para alguns irmãos na fé e eles parecem estar num estágio de santidade tão avançado! “Uau, parece que ele já nasceu pronto”. Então, olhamos para nossa condição e parece que estamos lá no início da corrida quando eles já estão na reta final. Parece que nunca chegaremos lá. Isso pode ser terrivelmente frustrante, mas pense comigo: se o apóstolo Paulo, que escreveu a maior parte do Novo Testamento (só pra início de conversa) teve que APRENDER a viver contente; isso significa que todo o cristão passa pelo estreito caminho da santificação. Ninguém nasce pronto, esse é o processo de uma vida inteira.

Adapte-se

Preste atenção nisso: o contentamento de Paulo não floresceu quando ele recebeu o que tinha falta, mas quando ele não recebeu! É na privação, esse solo difícil de arar, onde muitas das bênçãos de Deus florescem. Por isso, deixo aqui um conselho: se você está descontente por aquilo que lhe falta, experimente adaptar-se. Soa estranho, mas é isso mesmo. Ao invés de lamentar-se e lembrar-se disso diariamente, viva! Prossiga, planeje ou replaneje, se for preciso, mas permaneça na vontade de Deus. Pode ser que Deus não vá te dar aquilo que você almeja. Ainda assim, você terá aprendido a viver contente em meio à privação, isso é um grande ganho. Ou, pode ser que, assim como Paulo, em algum momento Deus conceda aquilo que você almeja; mas não antes de você ter aprendido a viver contente sem isso. Você poderá então se juntar ao apóstolo Paulo e dizer: Alegrei-me sobremaneira no Senhor pela dádiva recebida. Digo isso, não porque recebi aquilo que me faltava até porque, aprendi a viver contente em toda e qualquer situação, sendo honrada ou humilhada, em todas as coisas tenho experiência: tudo posso naquele que me fortalece! (paráfrase de Fp 4:11-13)

Te incentivo a lembrar-se disso: “tudo posso naquele que me fortalece”. Talvez esse tenha sido o coro de Paulo nos dias difíceis. Que seja o nosso também: “tudo posso naquele que me fortalece”.

Exercite a gratidão

Ao lermos as epístolas de Paulo, chama a atenção o fato de que mesmo em cadeias, ele sempre tinha motivos de gratidão. Paulo enxergava tantas razões para render graças a Deus que diante delas, suas aflições se tornavam leves. Paulo constantemente dava graças pela vida dos irmãos na fé. Devemos ser gratos não somente por nós, mas ser capazes de nos alegrar e dar graças por aquilo que Deus tem feito na vida de nossos irmãos. Quando lutamos conta o descontentamento, corremos o risco de nos tornarmos ingratos por nós e ingratos também por aquilo que Deus tem feito na vida do nosso próximo. Isso é muito nocivo. Devemos prevenir esse mal exercendo gratidão em duas frentes: por nós e pelo nosso próximo.

Leia a Bíblia e faça oração

Esse simples corinho infantil é profundamente verdadeiro. Cultive uma vida de leitura e oração diária. Isso é FUNDAMENTAL pra uma vida de contentamento em Deus. O descontentamento cria raízes no coração onde a Palavra de Deus não está sendo semeada e nutrida. Por experiência própria, sei que quanto menos leio a Bíblia mais descontente me sinto com a vida que tenho. A Palavra de Deus é um porto seguro onde encontramos refúgio em meio aos nossos temores.

Desconecte-se

Tenha cuidado com o tempo gasto acessando as redes sociais. Elas são uma ferramenta muito útil em nossos dias e nós não as demonizamos, no entanto, como tudo nessa vida, precisamos reconhecer os perigos que nos rondam quando as utilizamos em excesso. Por vezes elas são como vitrines nos mostrando aquilo que não temos e que “precisamos” ou nos fazendo pensar que “a grama do vizinho é sempre mais verde”. O contentamento requer que nos policiemos quanto aos nossos pensamentos e sentimentos, por isso desconecte-se um pouco.

Falamos tanto sobre o descontentamento, mas talvez você esteja se perguntando: Por que o descontentamento é tão grave? À primeira vista, ele parece ser algo inofensivo e banal, mas ele é pecaminoso.

Primeiramente, o descontentamento desonra a Deus. Deus não somente nos tem concedido bênçãos diárias, como nos concedeu a bênção eterna da salvação. Em Cristo Jesus Deus supriu a nossa maior carência: um relacionamento real com Ele. O descontentamento desonra a Deus porque não reconhece os grandes feitos de dEle por nós.

O descontentamento põe em dúvida o caráter de Deus (incredulidade). O Salmo 84:11 diz que “O Senhor é sol e escudo; o Senhor dá graça e glória; nenhum bem sonega aos que andam retamente”. Sonegar significa ocultar algo, dizer que não tem algo que de fato tem (mentir); não pagar ou contribuir com alguma quantia devida; não partilhar informação com outros[2]. Não foi exatamente disso que a serpente acusou a Deu no Éden? (Gn 3:5)

O descontentamento revela nossa ingratidão. Quando estamos descontentes passamos mais tempo pedindo do que agradecendo, como as filhas da sanguessuga nós só sabemos dizer: “dá, dá” (Pv 30:15) ao invés de nos curvarmos a Deus em gratidão.

Por fim, o descontentamento produz inveja. Uma vez que você não tem aquilo que deseja, você passa a invejar aqueles que têm. A inveja é um pecado que preferimos não mencionar. É muito fácil você ouvir alguém dizer, “sou orgulhoso”, mas, dificilmente ouvirá alguém dizer, “sou invejoso”. Não quero me aprofundar nesse pecado, basta lembrarmos que Caim matou Abel por inveja. Sabemos o quão destrutiva é a inveja se não for combatida pelo poder de Deus.

Portanto, não se engane, o descontentamento está bem longe de ser algo inofensivo. Dito isso, quero deixar aqui alguns lembretes para o coração descontente:

– Lembre-se em que você tem crido e tenha certeza de que Deus te ama tanto que reservou o maior e melhor tesouro em um lugar em que nem a traça nem a ferrugem podem corroer. Esse tesouro não se desgasta com tempo, ele é eterno (2 Tm 1:12; Mt 6:20).

– Lembre-se que não há nenhum bem que Deus já não tenha concedido a você em Cristo Jesus (Ef 1:3).

– Lembre-se que Deus é um bom Pai, Ele não concede cobras nem escorpiões a seus filhos necessitados, mas o melhor segundo a Sua vontade que é boa, perfeita e agradável. (Lc 11:11-13; Rm 12:2)

– Lembre-se que só existe um lugar onde o nosso coração encontra descanso e contentamento pleno: em Cristo. Quando o descontentamento te assolar, corra para Cristo e encontrarás descanso para a alma (Mt 11:28-29; Sl 131:2, 147:3).

Que o Senhor nos ajude a exercitar o contentamento nesse mundo descontente e refletir sua glória em todas as circunstâncias.

“Fizeste-nos para Ti e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em Ti” (Agostinho)

Em Cristo Jesus,

Prisca Lessa

[1] Fonte: Dicionário Bíblico Strong Léxico Hebraico, Aramaico e Grego de Strong

[2] Fonte: Dicionário Informal

DEVOCIONAL.

No capítulo 20 do evangelho de João um verbo se repete com certa frequência:
v. 1 “[Maria Madalena] viu a pedra revolvida”
v. 5 “[o outro discípulo] viu os lençóis de linho”
v. 6 “[Pedro] também viu os lençóis”
v.8 “[o outro discípulo] viu, e creu”
(No v. 11 também nos é dito que Maria olhou para dentro do túmulo)
v.12 “e [Maria Madalena] viu dois anjos vestidos de branco”
v.14 “[Maria Madalena] voltou-se para trás e viu Jesus em pé, mas não o reconheceu”
v. 18 “Então, saiu Maria Madalena anunciando aos discípulos: Vi o Senhor!”
v. 20 “Alegraram-se, portanto, os discípulos ao verem o Senhor”
v. 25 “Disseram-me [a Tomé], então, os outros discípulos: Vimos o Senhor. Mas ele respondeu: Se eu não vir nas suas mãos o sinal dos cravos […] de modo algum crerei”
v. 27 “Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos”
v. 29 “Porque me viste, creste? Bem aventurados os que não viram e creram”

João está destacando a condição de incredulidade dos discípulos:

Eles viam mas não conseguiam enxergar e perceber o que estava acontecendo. Viram os lençóis, viram o túmulo vazio, mas não enxergaram a realidade contida nesses fatos. Estavam cegos. Maria viu o túmulo vazio, viu os anjos, (num primeiro momento) viu a Jesus, mas não enxergou a realidade dos fatos; permanecia inconsolável em sua tristeza. Até que finalmente, seus olhos foram abertos e ela VIU o Senhor e toda a sua visão acerca dos fatos foi transformada. Ela, então, pôde testemunhar, não somente que viu ao Senhor, mas o cumprimento dos eventos profetizados por Jesus acerca de sua morte e ressurreição.

Os discípulos estavam reunidos e amedrontados, tiveram seus olhos abertos, sua incredulidade caiu por terra quando viram o Senhor. Mas, Tomé não viu, e porque não viu permaneceu na incredulidade (da qual os demais haviam sido libertos). E ele logo disse o que os demais não haviam dito: “Se eu não vir, DE MODO ALGUM crerei.” Perceba a obstinação do discípulo. Em outras palavras, ele admite que sua fé estava condicionada ao que via. Se não visse jamais, não creria jamais.

Que declaração chocante, a de Tomé, mas, afinal, não era esta a condição dos demais? No fundo, todos os discípulos partilharam da mesma incredulidade, mas, Tomé chegou por último e foi o bode expiatório.

Todavia, Jesus, conhecendo a pequena fé de seus discípulos, mais uma vez se mostrou e disse a Tomé: “vê”. “Não sejas INCRÉDULO [o Mestre apontou o problema], mas crente [e deu a solução]”.

Tomé também viu o Senhor e seus olhos se abriram. Ele foi liberto da incredulidade: “Senhor meu é Deus meu”. Que bela confissão, mas, Jesus não se deteve diante desta declaração e o repreendeu: “Porque me viste, creste? Bem-aventurados os que não viram e creram”. A repreensão foi severa, mas não foi só para Tomé, foi para todos que, cegos pela incredulidade, não conseguem enxergar a verdade.

É possível que mesmo sendo discípulos de Jesus passemos por crises de fé em certos momentos. Cristo chama a nossa atenção para isso, Ele não passa a mão em nossa cabeça e diz: “Tudo bem ser um pouco incrédulo”. Cristo teve misericórdia de Tomé, ao aparecer para Ele, mas, ainda assim o repreendeu: seja crente! Pare de ficar se lamentando pelos cantos, pare de impor condições a Deus, seja maduro na fé, creia, o Senhor já te deu todas as ferramentas necessárias para exercitar a sua fé, então, exercite-a!

Saiamos dos campos da falta de ânimo, da falta de fé e do lamento, Cristo vive! E que a mensagem da ressurreição seja proclamada: O Senhor está vivo!

Um bom domingo de Páscoa.

No amor de Cristo,

Prisca Lessa

O sofrimento justifica minha falta de amor? Olhe para a cruz!

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“E junto à cruz estavam a mãe de Jesus, e a irmã dela, e Maria, mulher de Cléopas, e Maria Madalena. Vendo Jesus sua mãe e junto a ela o discípulo amado, disse: Mulher, eis aí teu filho. Depois, disse ao discípulo: Eis aí a tua mãe. Dessa hora em diante, o discípulo a tomou para casa” (João 19:25-27)

Essa é a narrativa do apóstolo João acerca das últimas horas de Jesus. Nesta ocasião, o Senhor já estava crucificado; cansado, faminto, sedento, ferido. A dor da traição também o afligia; muitos dos seus discípulos o haviam abandonado. Mas, ali, junto à cruz, permaneciam alguns dos seus, dentre eles Maria, sua mãe, e também o discípulo amado[1].

Aquele era, sem dúvida, o pior momento da vida de Jesus, Ele experimentava dor intensa em todas as dimensões do seu ser. Estava esgotado, não havia mais forças em si mesmo. O Salvador estava prestes a morrer, mas não sem antes nos falar ao coração mais uma vez: ali, nas piores condições, Jesus nos ensina um dos grandes princípios da fé cristã: o amor ao próximo.

Em seu momento de dor, Jesus não deixou de lado o grande mandamento, Ele amou, e amou até o fim. João nos conta de um momento íntimo exclusivo em sua epístola, onde Jesus, Filho de Deus nascido de mulher, expressa seu amor e cuidado por sua mãe. Maria permaneceu ao seu lado até o último instante. Não ousou tentar impedir que esse momento ocorresse – ela sabia que para este momento o Filho de Deus lhe fora concedido. Ainda assim seu coração maternal estava em ruínas. Apesar do horror da cruz, ela não pôde deixar de estar ao lado de seu amado filho e Senhor, por meio de quem havia recebido amor e cuidado ao longo dos anos. Era uma hora difícil. Assim como os discípulos estavam incertos quanto ao futuro após a morte do Mestre, certamente, Maria também nutria medos e incertezas. O que aconteceria a partir daquele dia? Ela esteve com Jesus ao longo dos anos e recebeu dele cuidado e amparo, mas o que aconteceria dali em diante?

“Assumindo o fato de que José não era mais vivo no momento da morte de Jesus, começamos a entender o motivo pelo qual houve uma preocupação toda especial com sua mãe na crucificação. Jesus era o responsável por ela. O costume judaico dizia que, uma vez morto o pai, a herança era dividida imediatamente da seguinte forma: metade dos bens para o filho mais velho e a outra metade dividida entre os filhos homens. O primogênito ficava com a maior parte, pois lhe cabia sustentar a mãe enviuvada e as irmãs solteiras.”[2]. Conforme indicado no Evangelho de Lucas, a família de Jesus era pobre, eles não possuíam muitos recursos; Jesus não possuía uma renda, mas é possível que com o pouco ainda conseguisse suprir os cuidados de sua mãe. Porém, com sua morte Jesus se preocupou com o bem-estar de Maria manifestando sua responsabilidade de filho mais velho ao prover para ela sustento designando-lhe um filho na fé: “Mulher, eis aí teu filho. Depois, disse ao discípulo: Eis aí a tua mãe”[3].

            Esta breve, porém sensível, narrativa de João tem muito a nos ensinar. Em seu pior momento de dor, Jesus não deixou de manifestar amor. Seu amor não estava condicionado às circunstâncias, sentimentos ou pessoas. Mas nós dificilmente assumimos essa postura. Pelo contrário, é muito comum que em momentos difíceis nos isolemos, nos inclinemos ao egoísmo e coloquemos nossos sentimentos – problemas e frustrações – em primeiro lugar. Sentamos em nosso trono e julgamos que os outros têm a obrigação de se sujeitar à nossa amargura porque estamos sofrendo.

Usamos o sofrimento como uma licença para sermos insensíveis, duros e ausentes.

            Usamos a justificativa “eu não estou bem” como licença para proferir palavras amargas, deixar de dar atenção, abraçar e atender às necessidades do outro. Sob esta “licença” nos tornamos rudes, frios, desafetuosos e impacientes com aqueles que estão ao nosso redor e não nos sentimos culpados por isso, afinal não estamos e o mundo precisa entender isso. “Estou sofrendo e o sofrimento justifica minha falta de amor”.

            Mas, quando olhamos para a cruz aprendemos que nem mesmo o (pior) sofrimento justifica a falta de amor. Cristo nos ensina que o verdadeiro amor não se deixa vencer pelo sofrimento. Se há alguém que tinha o direito de viver seu sofrimento plenamente sem se importar com ninguém esse alguém é Jesus. Ele, que havia sido abandonado, poderia abandonar a todos. Ele, que havia dedicado sua vida pelos outros, poderia escolher viver aqueles últimos instantes para si mesmo; se voltar para o Pai e esquecer de todo o resto. Mas, não, o Senhor não usou o sofrimento como instrumento de egoísmo, pois, o amor nunca é egoísta.

            Não quero com isso dizer que é fácil, nós bem sabemos o quanto é difícil. É difícil amar quando estamos feridos. As palavras saem atravessadas facilmente; nossa tendência é nos voltarmos para dentro e esquecermos o mundo; nossa tendência é sentir raiva daqueles que não estão sentindo o nosso sofrimento – ainda que não expressemos isso em palavras. Quando sofremos é difícil olhar para as necessidades do outro, mas Jesus olhou. Não somente para Maria, mas para aqueles homens crucificados junto a Ele, olhou para cada um de seus discípulos, presentes e ausentes, olhou para mim e olhou pra você. Amar é a demonstração prática do evangelho e viver o evangelho não é fácil.

            O evangelho é duro, pois nos diz que mesmo sangrando devemos ser santos, devemos ser como Cristo. Ele nos aponta a direção contrária ao nosso coração e nos ensina que mesmo quando estivermos sentindo profunda tristeza de alma, devemos amar ao nosso próximo. Não devemos despejar o sofrimento sobre o outro, pelo contrário, devemos usar o sofrimento como ocasião para nos assemelharmos a Cristo. Devemos usar o sofrimento para servir e não querermos ser entronizados e adorados. O sofrimento não dominou o nosso Senhor, não deve nos dominar também. Naquele momento em que deveria ser exclusivo de Jesus, Ele se ocupou em cuidar do coração de Maria. Que o Senhor nos ajude a abençoar em meio ao sofrimento, em meio à mágoa e às adversidades da vida.

Não devemos nos deixar dominar por nada, nem mesmo pelo sofrimento.

            Jesus também nos ensina que nos momentos mais difíceis de nossa vida, Ele provê consolo de onde menos esperamos. Ele cuida de nós. Quando Maria imaginaria que João se tornaria seu filho? Que ele cuidaria dela até ditosa velhice?! Ela não sabia o que seria do seu amanhã, mas Jesus já havia cuidado de tudo. A cruz não era empecilho para o seu agir.            Podemos passar por momentos de medo e incertezas, assim como os discípulos naquela sexta-feira, mas devemos nos lembrar de que se nem mesmo os cravos impediram Jesus de suprir as necessidades de Maria, o que pode impedi-Lo agora que ele está á destra do Pai?! Ele intercede por nós, não importa qual seja o tamanho da nossa angústia, medo e necessidade. Ele cuida de nós. Não existe qualquer circunstância que possa impedir a provisão de Deus para o seu povo. Ele não falha e não se esquece de nós.

            Sabendo disso, nós podemos descansar de nossos sofrimentos, repousar em seu amor e amar uns aos outros como Ele nos ama.

O sofrimento, por maior que seja, nunca deve superar o amor. Na cruz Jesus nos mostra que nem mesmo o pior sofrimento supera o amor.

            “Tendo amado os seus, amou-os até o fim” (Jo 13:1).

Senhor, ajude-nos a amar. Até o fim.

 

No amor de Cristo,

Prisca Lessa

Chesterton e o Deus que exulta na Monotonia.

Trabalhar com crianças me faz ouvir muitos “de novo”. Às vezes eles não se expressam em palavras, mas com bracinhos esticados e olhos cheios de expectativa. À cada repetição, a diversão vai se tornando enfadonha para mim, enquanto a criança vai jubilando cada vez mais. Ela poderia vir com seus bracinhos esticados umas cem vezes, se possível, já eu, não aguentaria até a décima repetição.

É incrível pensar que Deus não se cansa, é incontável o tempo em que Ele vê tudo de novo sem se cansar. Deus não sofre com o tédio.
Por isso, ao olhar a vibração de uma criança, somos lembrados de que Deus não se cansa, e, sim, como disse Chesterton, em certo sentido, Deus é jovem, muito mais do que nós, que envelhecemos e nos cansamos. Esse trecho de Ortodoxia é sempre um deleite para mim. E se você nunca leu este livro, leia e reflita nisso:

“Todo o intenso materialismo que domina a mente moderna apóia-se, em última análise, numa suposição; uma suposição falsa. Supõe-se que se uma coisa vai se repetindo ela provavelmente está morta; uma peça numa engrenagem. As pessoas sentem que se o universo fosse pessoal ele variaria; se o sol estivesse vivo ele dançaria. O que é uma falácia até em relação a fatos conhecidos. Pois a variação nas atividades humanas é geralmente causada não pela vida, mas sim pela morte; pelo esmorecimento ou pela ruptura de sua força ou desejo.

Um homem varia seus movimentos por algum leve elemento de incapacidade ou fadiga. Ele toma um ônibus por estar cansado de caminhar; ou caminha por estar cansado de ficar sentado imóvel. Mas se sua vida e alegria fossem tão gigantescas que ele nunca se cansasse de ir para Islington, ele poderia ir para Islington com a mesma regularidade com que o Tamisa vai para Sheerness. A própria velocidade e êxtase de sua vida teria a imobilidade da morte. O sol se levanta todas as manhãs. Eu não me levanto todas as manhãs; mas a variação se deve não à minha atividade, mas à minha inação.

Ora, para expressar o caso numa linguagem popular, poderia ser verdade que o sol se levanta regularmente por nunca se cansar de levantar-se. Sua rotina talvez se deva não à ausência de vida, mas a uma vida exuberante. O que quero dizer pode ser observado, por exemplo, nas crianças, quando elas descobrem algum jogo ou brincadeira com que se divertem de modo especial. Uma criança balança as pernas ritmicamente por excesso de vida, não pela ausência dela. Pelo fato de as crianças terem uma vitalidade abundante, elas são espiritualmente impetuosas e livres; por isso querem coisas repetidas, inalteradas. Elas sempre dizem: “Vamos de novo”; e o adulto faz de novo até quase morrer de cansaço. Pois os adultos não são fortes o suficiente para exultar na monotonia.

Mas talvez Deus seja forte o suficiente para exultar na monotonia. É possível que Deus todas as manhãs diga ao sol: “Vamos de novo”; e todas as noites à lua: “Vamos de novo”. Talvez não seja uma necessidade automática que torna todas as margaridas iguais; pode ser que Deus crie todas as margaridas separadamente, mas nunca se canse de criá-las. Pode ser que ele tenha um eterno apetite de criança; pois nós pecamos e ficamos velhos, e nosso Pai é mais jovem do que nós. A repetição na natureza pode não ser mera recorrência; pode ser um BIS teatral. O céu talvez peça bis ao passarinho que botou um ovo.”

~ Ortodoxia, G.K. Chesterton

Apoio.

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Olá, queridas irmãs (e irmãos) que acompanham o blog! Me perdoem pelo sumiço, há semanas não tenho escrito nada por aqui, mas isso é (em parte) por uma boa causa: ando atarefada na execução de um projeto especial e gostaria de compartilhá-lo com vocês.

Trabalhar com famílias sempre foi um sonho; desde o ano passado iniciei um projeto para pais chamado Espaço Saber, cujo objetivo é atender pais de alunos matriculados em escolas públicas (ou particulares). O projeto inclui palestras bimestrais com temas voltados para a família e um acompanhamento mensal onde os pais têm um tempo para ouvir e serem ouvidos acerca das dificuldades familiares e pessoais.

Tenho encarado isso como uma missão cujo objetivo é enfatizar o valor da família na sociedade e especialmente na formação das crianças.

Esse ano o projeto ganhou corpo e está sendo implementado numa escola conveniada com a prefeitura na cidade de Vargem Grande Paulista, onde resido atualmente, e no dia 14/04 faremos o primeiro encontro cujo tema é:

“ADAPTAÇÃO E DISCIPLINA NA INFÂNCIA”

Falaremos sobre a importância da disciplina (o valor do não, a necessidade de impor limites aos filhos) e o papel dos pais na formação da criança.

Como o projeto está em fase embrionário, ainda não há recursos nem apoio financeiro suficiente para nos organizarmos. Mas, creio que Deus abrirá as portas. A fim de arrecadar recursos para este primeiro encontro estamos fazendo de tudo um pouco e surgiu a ideia de criarmos uma vaquinha. Nossa meta é R$700,00, mas o que conseguirmos já será de grande valia e sei que Deus multiplicará o que tivermos.

Caso queiram e possam colaborar, ficarei feliz e grata. Mas acima de tudo, conto com as orações de vocês, porque sei que se não for o Senhor nada disso será feito e, acima de tudo, meu desejo é que todo esse trabalho seja pra glória dEle e não nossa e que muitas famílias sejam alcançadas.

Por isso, deixo aqui o meu convite para que você seja nosso parceiro nessa missão. Qualquer dúvida, estou à disposição.

Segue o link da Vakinha:
https://www.vakinha.com.br/vaquin…/primeiro-encontro-de-pais

E nos ajudem compartilhando! Muitíssimo obrigada, queridos!

No Amor de Cristo,

Prisca Lessa

 

Mulher e/é poesia.

A primeira poesia na história da humanidade foi feita para descrever uma mulher ❤ Quão belo e singelo este fato.

No Éden, ao se deparar com aquela criatura que transcendia tudo quanto já havia visto, Adão a nomeou. Não como fizera com outras criaturas, pois que, tomado de inspiração, poetizou:

“Esta, afinal, é osso dos meus ossos
e carne da minha carne;
chamar-se-à MULHER,
porquanto do homem foi tomada.”

Resta alguma dúvida de que mulher é inspiração e poesia?! Portanto, que a chamem ditosa, que seja louvada e que receba o fruto das suas mãos (Pv 31:28,30-31)